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Blow-Up: A relação do homem com a realidade

Já parou para pensar na forma como a gente percebe a realidade à nossa volta? Há um tempo atrás, escrevi aqui no blog sobre o conceito de “Sonder“, que traz bastante humildade para o que chamamos de “realidade” ao nos mostrar que cada pessoa têm a sua e é preciso aceitar e respeitar isso também. Sonder é um conceito bem bonito, mas hoje quero tentar abordar a realidade de uma maneira diferente. Quando olhamos para alguma coisa, boa parte do que vemos é um pré-conceito do que a gente pensa que está vendo e as nossas experiencias passadas influenciam nossa percepção. Talvez pareça estranho a forma como escrevi, mas o que quero dizer é que existe uma discrepância entre o que vemos e o que percebemos. Ou seja, a forma como percebemos a realidade não necessariamente é como ela de fato é. Isso porque a nossa percepção é contaminada por vários estímulos sensoriais ou experiências anteriores. Bom, ao menos é isso o que diz Mo Constandi em seu artigo para o The Guardian:

“As ilusões de ótica demonstram claramente que o cérebro nem sempre interpreta corretamente a informação sensorial, ao produzir uma discrepância entre o que vemos e como percebemos. Essas discrepâncias geralmente ocorrem porque a informação visual está incompleta e o cérebro precisa preencher as lacunas. Mas as nossas percepções podem ser influenciadas por muitos fatores, mesmo em circunstâncias normais – sabemos, por exemplo, que a forma como nos sentimos afeta o que vemos, e que a música afeta a forma como percebemos as expressões faciais.”

Costandi, 2011

Legal, não é? A forma como percebemos a realidade é uma questão complexa e fascinante e uma das abordagens mais intrigantes sobre essa temática pode ser encontrada no filme “Blow-Up” (1966), dirigido por Michelangelo Antonioni. Este filme oferece uma visão única sobre a percepção da realidade, desafiando o espectador a questionar a natureza da verdade e da ilusão. E aqui lanço uma pergunta: entender e questionar nossas próprias percepções sobre a realidade pode de fato mudar quem somos? Acho que Blow-Up responde isso.

“Depois daquele beijo”

Blow-Up, 1966

Antes de mais nada, Blow-Up não é um filme convencional. Eu sempre gosto de recomendar esse filme, mas tenho ciência de que, narrativamente, ele é desafiador de assistir. Enfim, o filme é uma adaptação de um conto chamado “Las Babas del Diablo“, do autor argentino Julio Cortázar. Como adaptação, Blow-Up é, ao mesmo tempo, uma interpretação e um filme sobre interpretação. É sobre a relação do homem com a realidade. É sobre a linha entre arte e artista e Antonioni é, também ao mesmo tempo, observador e participante, influenciando inconscientemente a realidade que procura capturar. Agora, um pouco de contexto…

Blow-Up acompanha Thomas, um fotógrafo de moda que em caminhada reflexiva (sobre a vida, talvez?) se depara com um casal interagindo no parque. Thomas decide então fotografar aquele momento, tentando capturar aquela intimidade pelas lentes de sua câmera, quase que como um voyeur. Ele tira fotos espontâneas do casal – parecia que a mulher estava puxando o homem em sua direção enquanto ria e então começaram a se beijar.

Mas de repente, quando Thomas estava prestes a sair do parque, tranquilo, a mulher o notou e começou a o perseguir aos gritos.

“O que você está fazendo? Pare com isso! Você não pode fotografar pessoas assim.”

Thomas consegue se livrar dela até que, mais tarde, resolve examinar as fotos. Ele amplia e reimprime cada quadro como se estivesse criando uma nova história fixada nas paredes de seu estúdio. E ao ver detalhes nas fotos ampliadas, ele percebe algo que perdeu quando viu a cena ao vivo: Um homem com uma arma escondida no mato. Algo que poderia ser um corpo, ofuscado pelos arbustos. Será que Thomas impediu um assassinato? Ou será que ele testemunhou um assassinato? O impacto desta irrealidade sobre esse personagem dá o tom do filme dessa sequência em diante.

A realidade através das lentes da obsessão

Muito além de um thriller investigativo ou qualquer que seja a categoria desse filme, Blow-Up nos convida a re-interpretar a realidade a nossa volta e questionar se o que vemos é o que de fato percebemos. E ele faz isso de maneira natural pois, ao longo da narrativa, os próprios expectadores do filme vão inevitavelmente se perguntar se o que Thomas viu, ou pensa que viu, realmente faz sentido. Portanto a alucinação de Thomas é transmitida a quem assiste, tornando sua irrealidade uma experiência compartilhada. O filme ainda vai além: dá para considerar aquela foto uma representação fiel da realidade? Thomas manipula suas fotografias de maneira extremamente obsessiva, ampliando e analisando minuciosamente, buscando os menores detalhes, mas a fotografia, como objeto, pode distorcer ou ampliar a realidade, dependendo da perspectiva do observador. Então até que ponto podemos confiar em suas percepções? Ou melhor, até que ponto podemos confiar em nossas próprias percepções?

Thomas projeta a sua própria imaginação nos detalhes da sua foto. Ele não vê mais uma imagem parada, mas sim um filme vivo. Ele cria para si mesmo uma série de eventos, até mesmo traçando o dedo dos olhos da mulher até o objeto de seu olhar, encontrando o suposto homem com a suposta arma – “alguém estava tentando matar outra pessoa” e “eu salvei a vida dela”. Seus pensamentos são a generalização de sua própria experiência.

Por incrível que pareça, a generalização é essencial para a nossa forma de compreender a nossa percepção. Krishna Chodipilli, em seu ensaio The Power of Perception: Understanding Deletion, Distortion, and Generalization in a Narrative, explica que a generalização envolve tirar conclusões amplas ou declarações abrangentes baseadas em informações limitadas ou incompletas. Ocorre quando os indivíduos aplicam experiências ou crenças passadas a novas situações sem considerar as nuances únicas ou o contexto da situação atual. O processo de generalização nos ajuda a compreender, mas também nos dá pré-conceitos que podem levar à uma falsa interpretação da realidade.

A informação que chega através dos nossos olhos só significa alguma coisa se pudermos fazer uma referência cruzada. Por exemplo, quando os bebês estendem a mão para tocar algo que está à sua frente, eles não estão apenas aprendendo como é aquele objeto – estão ao mesmo tempo aprendendo a ver o objeto. William Molyneux apresentou um experimento mental interessante no final de 1600. Este experimento é conhecido como o problema de Molyneux e questiona o seguinte: “se um homem cego de nascença pode sentir as diferenças entre formas como esferas e cubos, ele poderia de forma semelhante distinguir esses objetos pela visão se de repente ganhasse a capacidade de ver?”. Portanto, precisamos cruzar as referências para de fato colocar sentido no que enxergamos. E quando olhamos mais para Thomas como personagem, existe algo interessante de observar.

Thomas é descomprometido, hostil, indiferente. Eu diria que ele é profissionalmente bem-sucedido e um fotógrafo muito bom, mas ele só tem controle de si mesmo e sobre as situações quando está armado com sua câmera. Sem ela, ele fica mais fraco e vulnerável. O filme sugere também uma certa incerteza sexual por parte dele, pela forma desdenhosa e seca como trata as mulheres, dominando e até humilhando, geralmente evitando o envolvimento pessoal. Thomas é um voyeur, um enganador, um artista. Um homem comum de uma geração insatisfeita: obcecado pelas superfícies, mas cego para o valor interior das pessoas e para o significado mais profundo dos eventos que ele registra com tanta habilidade com sua câmera.

Enxergar uma cena de crime em sua própria fotografia é uma forma de se libertar de seu estado atual. Thomas demonstra insatisfação com sua vida desde o início, como se estivesse faltando alguma coisa. Uma cena de crime faz sentido, pois ele cruza sua fotografia não com algo palpável, mas sim com sua vontade interior. O possível incidente no parque reviveu Thomas. É como se ele tivesse sido despertado de um sono profundo e entediante. À partir disso ele então cria, na manipulação de suas próprias fotos, sua maneira pessoal de ver o mundo. Thomas passa a perceber uma nova realidade.

Wow! Esse filme é simplesmente incrível! E talvez quanticamente correto. A mecânica quântica diz, através do “efeito do observador”, que observar um sistema, como o universo por exemplo, muda o resultado do que vemos. Bizarro (como tudo na física quântica), mas se aplicarmos isso à Blow-Up, podemos dizer que Thomas, ao observar sua fotografia, altera o que vê. Mais do que isso, ele se torna parte dela, se torna parte de sua própria e nova realidade.

Redefinindo a realidade

Entender e questionar nossas próprias percepções sobre a realidade pode de fato mudar quem somos?

Sim, Blow-Up responde essa pergunta. Se virmos um cadáver, temos certeza de que vimos um cadáver. Se usarmos uma lupa para examinar uma fotografia ampliada e observá-la em profundidade, poderemos ver todo tipo de coisas e começaremos a acreditar que elas estão ali. Em um determinado momento no filme, uma modelo diz que vai para Paris, mas posteriormente a gente a vê em Londres. Ela claramente não está em Paris. Ela até diz: “Estou em Paris”, mas você não é idiota. Ela não está em Paris. Mas talvez esta seja uma realidade que ela diz para si mesma. Em sua carreira de modelo, ela é maquiada, lhe dizem o que vestir, onde se posicionar e como agir. Porquê ela não pode ter outra realidade?

Quando Thomas retorna ao local do suposto cadáver com sua câmera, ele desapareceu. Não há evidências de que o corpo tenha estado lá. A sua realidade permanece apenas consigo mesmo. Talvez nunca houve de fato alguém ali.

Essas camadas da realidade podem ser também percebidas em uma turma de mímicos no filme. Os mímicos abrem e fecham Blow-Up. No início, eles são vistos vagando pelas ruas pedindo dinheiro. No final, a mesma turma participa de uma simulação de partida de tênis, com raquete e bola imaginárias. No início, Thomas simplesmente os acha divertidos. No final, ele compartilha a experiência daquele grupo de mímicos: ele aceita e participa de sua realidade.

E, agora um achismo, acredito que isso seja uma consequência desse seu “despertar”. Thomas é uma pessoa diferente ao final de Blow-Up. O seu mundo adormecido de posses e explorações foi deixado de lado. Ao fim do filme, ele está pronto para as dualidades e complexidades da vida e, ironicamente, está isolado devido à isso. Ele não pode mais retornar à vida que tinha antes. Ele nunca mais vai usar sua câmera ou olhar fotografias da mesma maneira.

“Entender e questionar nossas próprias percepções sobre a realidade pode de fato mudar quem somos?” – O que você acha?

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Obrigado por chegar até aqui! Espero que tenha gostado do papo e te convido a dar uma olhada nos outros textos do blog. Um forte abraço!

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Material de Referência

1 – Mo Constandi, “Memory contaminates perception” (https://www.theguardian.com/science/neurophilosophy/2011/aug/17/memory-contaminates-perception)

2 – Olhe Novamente, ““Sonder” e a jornada que cada um temos que seguir” (https://olhenovamente.com.br/sonder/)

3 – Michelangelo Antonioni, “Blow-Up” (1966) – (https://www.imdb.com/title/tt0060176/)

4 – encyclopedia.com, “Blow-Up (Las Babas Del Diablo) By Julio Cortázar, 1959” (https://www.encyclopedia.com/arts/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/blow-las-babas-del-diablo-julio-cortazar-1959)

5 – Krishna Chodipilli, “The Power of Perception: Understanding Deletion, Distortion, and Generalization in a Narrative” (https://www.linkedin.com/pulse/power-perception-understanding-deletion-distortion-krishna-chodipilli/)

6 – Wikipedia, “Molyneux’s problem” (https://en.wikipedia.org/wiki/Molyneux%27s_problem)

7 – Forbes, “Observing The Universe Really Does Change The Outcome, And This Experiment Shows How” (https://www.forbes.com/sites/startswithabang/2020/05/26/observing-the-universe-really-does-change-the-outcome-and-this-experiment-shows-how/?sh=d6c9da967af1)

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