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Ex Machina, Qualia e o que nos torna Humanos

Acho que poucos assuntos são tão comentados hoje quanto a Inteligência Artificial e tudo o que ela implica na nossa vida e sociedade. Além dos avanços, dos dilemas éticos e das possibilidades, uma das coisas que mais me chama atenção nesse assunto é como lidamos com o conceito de consciência. A evolução artificial ocorre de uma forma onde o objetivo é reduzir a “estranheza” entre humanos e máquinas. Não sei usei a expressão mais adequada para isso, mas o que quero dizer é que um dos focos principais é o de tornar uma máquina e seu jeito de “pensar” indistiguível ao ser humano. Já foi bizarro pensar isso no passado mas hoje tá tudo aí, na nossa cara. Já usou o ChatGPT?

Ocorre que eu tenho uma certa dificuldade em aceitar que essa linha entre humanos e máquinas, apesar de tênue, se rompa de alguma forma. Tem sempre algo que nos separa, sabe? Algo íntimo, algo que só a vida, concebida da forma como é, consegue gerar. Mas o que seria isso? O que, de verdade, nos torna humanos?

Existe esse filme lançado em 2014, chamado Ex-Machina. É um filme dirigido por Alex Garland e é um dos meus filmes favoritos de ficção científica acredito que de todos os tempos. O filme conta sobre um jovem programador chamado Caleb Smith (Domhnall Gleeson), que é convidado por um intrigante CEO, Nathan Bateman (Oscar Isaac), para administrar o teste de Turing em um robô humanóide inteligente chamado Ava (Alicia Vikander). O teste foi desenvolvido para avaliar a consciência e a capacidade de Ava de exibir um comportamento semelhante ao humano. À medida que Caleb interage com a robô, ele se envolve em uma complexa teia de sentimentos e descobre a verdadeira natureza do experimento. O filme explora temas de inteligência artificial, ética e a linha tênue entre homem e máquina. Essa relação entre Caleb e Ava sempre me pegou no sentido de que, embora as máquinas possam simular bem o comportamento humano, a ponto de nos enganar, SÓ NÓS podemos sentir o que sentimos e da forma como sentimos. Só nós podemos exercer o que é conhecido como Qualia. Se esse nome é novo para você, saiba que este é um conceito lindo.

O conceito de Qualia e o Teste de Turing

Pense no seu sorvete favorito. Chocolate, morango, qualquer que seja. O meu nesse momento é pistache :). Agora, pense em como é este sabor. O sabor que você sente, dentro da sua cabeça, é diferente do sabor que outra pessoa vai sentir. O sorvete de pistache pode ser uma delícia para mim e para você, mas ele é uma delícia de maneiras diferentes. Seu sabor especial e único é diferente para cada pessoa. Entendemos o conceito, sabemos do que é feito, enxergamos as mesmas cores. Mas ao tomarmos o sorvete, ainda que do mesmo sabor e ao mesmo tempo, embora possamos descreve-lo de maneira similar, algo é imutável: o sentimos de formas diferentes. Essa distinção, essa coisa única dentro da gente que varia de pessoa para pessoa é conhecida como Qualia. É como se houvesse um sabor pessoal que só você pode saborear. São as coisas sentidas, cheiradas ou saboreadas para você, são todas as formas especiais que tornam suas experiências únicas e diferentes de qualquer outra pessoa. Isso é Qualia.

Falando mais formalmente, esse termo foi introduzido filosoficamente em 1929 por C. I. Lewis em uma discussão sobre a teoria dos dados dos sentidos. No uso contemporâneo, o termo foi ampliado para se referir de forma mais geral às propriedades da experiência. Exemplos paradigmáticos de experiências com qualia são experiências perceptivas (incluindo experiências perceptivas não verídicas, como alucinações) e sensações corporais (como dor, fome e coceira). Emoções (como raiva, inveja ou medo) e humores (como euforia, tédio ou ansiedade) também são geralmente considerados como tendo aspectos qualitativos. Legal, não é?

Mas onde entra o Turing e Ex Machina nisso daí?

A premissa central de Ex Machina gira em torno do Teste de Turing em Ava. O Teste de Turing, proposto por Alan Turing, avalia essa capacidade de uma máquina de exibir um comportamento inteligente indistinguível do de um ser humano. No filme, as interações de Caleb com Ava levantam questões interessantes e até preocupantes sobre a natureza da inteligência artificial e seu potencial para simular respostas semelhantes às humanas de forma convincente. À medida em que Caleb conversa com Ava, somos levados à questionar a autenticidade do comportamento da robô. Eu diria que o teste de Turing nesse filme quebra a quarta parede e nós, como públicos, também somos testados. Ex Machina é um filme que explora de forma incrível a linha tênue entre as respostas programadas e a consciência genuína, nos desafiando a considerar as implicações éticas da criação de máquinas que podem imitar o comportamento humano de forma tão convincente.

Mas quando pensamos em Qualia, por outro lado, nos referimos às qualidades individuais, subjetivas e muitas vezes inefáveis ​​da experiência consciente. É a sensação crua ou a sensação de experimentar algo, como o vermelho de uma maçã ou o sabor do sorvete de pistache. Embora nós, humanos, vivemos este conceito, eu me pergunto se as máquinas ou a inteligência artificial poderiam algum dia ter experiências subjetivas comparáveis à isso.

Ava é retratada como uma IA altamente sofisticada e torna-se uma personagem cativante à medida que o filme sugere a possibilidade de ela possuir uma forma de autoconsciência e consciência subjetiva. Não é só o Caleb quem se apaixona por Ava: Nós também. Se não no sentido romântico, no sentido de que o filme nos leva a sentir uma certa “compaixão” por aquele robô.

O design de Ava incorpora características humanas, tanto físicas quanto emocionais. Através de nuances sutis em suas expressões e interações, precisamos ponderar se Ava está apenas simulando emoções ou se ela as vivencia genuinamente. E aqui é traçada uma linha fascinante. Enquanto o Teste de Turing avalia o comportamento externo, Qualia e sua ênfase na experiência subjetiva nos leva a questionar se as máquinas podem realmente possuir consciência. Pode uma IA, mesmo que passe no Teste de Turing com louvor, experimentar os sabores pessoais que compõem o que chamamos de Qualia?

O que nos torna humanos?

Qual a essência da nossa humanidade? O que nos diferencia das máquinas, mesmo as mais sofisticadas, que conseguem passar no Teste de Turing? Bom, é justamente a profundidade das nossas experiências emocionais, a complexidade da nossa consciência e a capacidade de perceber o mundo através das lentes que só nós possuímos. A nossa humanidade está entrelaçada por experiências subjetivas – a alegria do riso, o calor da empatia, a dor da perda – só quem está vivo consegue entender o significado disso. Um robô consegue entender o que significa saudade, mas ele nunca sentirá o abraço de alguém importante que não vemos a tempos da mesma forma que sentimos.

Robôs imitam sentimentos e emoções. A única maneira desses sentimentos e emoções se tornarem algo próximo de reais em um robô, talvez seja através da autoconsciência, mas a consciência não é algo que possamos produzir de outra forma que não seja dando luz à ela.

O que nos torna humanos é um conjunto de subjetividades formados a partir de profundidade emocional, autoconsciência, criatividade, consciência moral e nossa capacidade de conexão. Nossa capacidade única de vivenciar e expressar uma ampla gama de emoções, refletir sobre nossa existência, criar, defender padrões morais e formar conexões profundas nos distingue das máquinas. À medida que a inteligência artificial avança, são os aspectos intangíveis da nossa experiência consciente que definem a essência da nossa humanidade. Esse é um dos nossos lados mais bonitos e talvez seja nossa maior fraqueza frente ao futuro que nos aguarda.

Voltando à Ex Machina, ao final, ironicamente, Ava prova ser um ser ‘consciente’ ao fingir deliberadamente seus sentimentos por Caleb para alcançar seus próprios objetivos, enquanto Caleb, que é sem dúvida um ser humano, é um vítima de sua programação biológica: o amor. De certos sentimentos, simplesmente não conseguimos escapar. Através de sua autonomia, Ava prova ser o próximo passo na evolução da consciência, enquanto os humanos são muito mais prisioneiros de seus impulsos biológicos, mais do que ousamos admitir. As emoções de Caleb (como o desejo frente à percepção de uma mulher), que foram inicialmente definidas como uma prova definitiva de consciência, no fim foram reflexos de suas próprias limitações. Somos reféns daquilo que nos torna humanos. Somos reféns da nossa própria mortalidade.

Somos únicos, porque somos falhos.

Penso, logo existo.

Pensar em Qualia, em Turing e na nossa humanidade, é se entregar aos eternos questionamentos da filosofia, da tecnologia e da autodescoberta. Qualia pinta as cores vivas da nossa consciência, o Teste de Turing nos chama a questionar os limites da inteligência artificial e a nossa humanidade emerge como através da única coisa que compartilhamos juntos como seres respirantes: nossas experiências.

O mundo está voando e, amanhã, pode ser que tudo o que escrevi aqui já não faça sentido mais, se é que faz hoje. Mas refletir sobre isso e se preocupar com o futuro é também humano. Sempre vai ser.

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Obrigado por chegar até aqui! Espero que tenha gostado do papo e te convido a dar uma olhada nos outros textos do blog. Um forte abraço!

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Material de Referência

1 – “Ex Machina” (2014), Alex Garland (https://www.imdb.com/title/tt0470752/)

2 – The Engines of our ingenuity, “Qualia” (https://engines.egr.uh.edu/episode/2778)

3 – Internet Encyclopedia of Philosophy, “Qualia” (https://iep.utm.edu/qualia/#:~:text=Qualia%20are%20often%20referred%20to,representational%20aspects%20of%20mental%20states).)

4 – Wikipedia, “Turing Test” (https://en.wikipedia.org/wiki/Turing_test)

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