Cinema

O Cinema Brechtiano de Yorgos Lanthimos

Yorgos Lanthimos

Em 2015 estreou o filme “O Lagosta” (The Lobster), uma obra super esquisita, mas que trouxe uma abordagem única e uma sátira social interessante. O filme apresenta uma sociedade distópica onde pessoas solteiras têm 45 dias para encontrar um parceiro romântico e, caso não consigam, são transformadas em um animal de sua escolha. A história gira em torno de David, interpretado por Colin Farrell, enquanto inserido nesse modelo peculiar. O Lagosta é um filme que flerta com o existencialismo, com o romance moderno e, principalmente, com o absurdo. Possui um humor sínico e dissimulado, mistura gêneros e tem personagens extremamente alienados. Mas isso não é uma característica exclusiva desse filme, mas sim de seu diretor: Yorgos Lanthimos.

Lanthimos é um diretor grego e é hoje bastante conhecido pela introdução da chamada “Estranha onda Grega” (puts, cabe um texto inteiro só para isso). Esse movimento se refere ao surgimento de uma marca subversiva de filmes gregos nas últimas duas décadas que exploram questões políticas e culturais de formas perturbadoras. Feito com orçamentos mais baixos devido à crise financeira do país, a Estranha Onda Grega conseguiu chamar a atenção do público em escala global. Lanthimos foi pioneiro nesse estilo com seu filme “Dogtooth” trazendo um jeito diferente e criativo de contar histórias e atrair atenção. A definição que mais gostei em relação a isso eu encontrei em um artigo no Medium, escrito por Marilia Kaisar:

“Grupos sociais reclusos e isolados, com regras específicas e tendência ao confinamento são certamente o centro dos filmes de Lanthimos. Ele usa seus atores de uma forma inovadora, orientando-os a atuar da forma mais irrealista possível, de uma forma que nos lembra marionetes ou robôs que ainda não estão realmente conscientes do elemento da fala e do pensamento. Cada quadro é desenhado e estilizado com rigor, em grande parte onde a câmera permanece imóvel no espaço, após ser colocada em uma posição cuidadosamente pensada, onde o único movimento vem dos atores que atuam na cena. Desta forma pouco ortodoxa, Lanthimos tenta apresentar-nos os seus ambientes utópicos únicos e grupos sociais isolados.”

Seu cinema é famoso pelo estilo excêntrico de retratar comportamentos humanos através do absurdo. É sua marca registrada. É através do absurdo em “O Lagosta“, por exemplo, e do comportamento estranho e obscuro de seus personagens que nos perguntamos qual é a verdadeira natureza das nossas relações, do amor e de nossa identidade individual. Lanthimos explora os pontos ridículos e confusos sobre estar com outra pessoa, se comprometer com ela, ser fiel e ser feliz ao mesmo tempo. Ele extrapola o bizarro e, com isso, nos conecta com sua narrativa. O absurdo e a estranheza nos afasta, cria distância entre público e obra, mas uma distância suficiente para criarmos um senso crítico sobre o que estamos vendo. Yorgos Lanthimos tem fortes traços Brechtianos.

O Teatro Épico de Bertold Brecht

No texto sobre Scorsese eu citei Brecht brevemente, mas aqui cabe uma apresentação melhor. Bertolt Brecht foi um poeta, dramaturgo e reformador teatral alemão cujo teatro épico se afastou das convenções da ilusão teatral e desenvolveu o drama como um fórum social e ideológico, especialmente para causas esquerdistas. Brecht moldou significativamente o teatro moderno com ideias revolucionárias que alteraram o cenário teatral. Durante o auge do teatro naturalista, que refletia acontecimentos sociais, Brecht procurou usá-lo como um catalisador para a mudança. Ele criticou a absorção emocional do público no teatro catártico, defendendo um envolvimento mais objetivo e ponderado. Para isso, desenvolveu o Teatro Épico, empregando técnicas como a quebra da quarta parede e a narrativa não linear, com o objetivo de distanciar emocionalmente o público e estimular a reflexão crítica sobre questões sociais, um efeito conhecido como Verfremdungseffekt. Sua abordagem teve um impacto duradouro nos métodos e na ideologia teatral.

Um bom exemplo está em sua peça “Mother Courage and her Children“. Brecht separou a peça em 12 capítulos, onde cada capítulo começa com uma placa gigante no topo do palco que explicaria sucintamente quase exatamente o que aconteceria naquele capítulo. Ele também pediu que seus atores empregassem um estilo de apresentação muito contundente, de modo que o conteúdo real do diálogo em si fosse focado pelo público, evitando que o público interpretasse a apresentação real do diálogo à sua maneira. Ele queria que seu público tentasse entender por que tudo estava acontecendo, e não o que iria acontecer.

O argumento de Brecht pode ser exemplificado por exemplos da nossa vida cotidiana. Advogados e consultores, por exemplo, podem muitas vezes ser mais eficazes do que as próprias partes envolvidas, simplesmente devido ao seu distanciamento das situações com que lidam. Da mesma forma, um público “distanciado” de teatro ou cinema pode atingir um grau mais elevado de julgamento objetivo do que aquele que está sob a influência paralisante de um profundo envolvimento emocional.

Portanto, sua abordagem é também estendida ao cinema e televisão, onde filmes e séries frequentemente utilizam mecanismos brechtianos para afastar emocionalmente a audiência e gerar um certo senso crítico.

Construindo narrativas através do absurdo e do bizarro

O absurdo na narrativa envolve a elaboração de narrativas que enfocam a irracionalidade e a falta de sentido da vida. Este subgênero muitas vezes emprega estruturas narrativas não convencionais e humor negro para desafiar as expectativas de quem o consome. Ao ultrapassar os limites da narrativa tradicional, o absurdo permite que os escritores explorem temas existenciais e a condição humana. O absurdismo também funciona como um distanciador emocional.

O cinema de Yorgos Lanthimos incorpora essa técnica. Ao extrapolar o absurdo e o bizarro, Yorgos cria essa sensação de estranheza e molda o olhar do público sobre sua obra. É interessante ver isso na relação homem-animal que ele cria em “O Lagosta“. Esse filme não se concentra nos animais como animais, mas os utilizam como uma “ferramenta” para uma narrativa humana em que se tornar um animal é o castigo final. Não existe “objetificação” ou “antropomorfização” (como em BoJack Horseman, por exemplo). Somos, na verdade, explicitamente informados de que Bob, o cachorro, é irmão do protagonista e deve ser encarado como tal pelo público. O universo de “O Lagosta” ainda vai além, e coloca o reino animal no centro de uma crítica às formas normativas de gênero e sexualidade como modos de regulação social. Por exemplo, quando David chega ao hotel, ele conversa com um funcionário o qual não nos é revelado o rosto. Ali ele é questionado se deseja ser registrado como heterossexual ou homossexual. David pergunta se pode se identificar como bissexual, mas o agente informa que bissexual não é mais uma opção. Aprendemos que a sexualidade é regulada de forma binária, onde a homossexualidade pode ser normalizada, mas qualquer potencial para a bissexualidade apresenta sérios “problemas operacionais”. Esta descrição binária é refletida nas leis que regulam aquele mundo ficcional.

A estrutura narrativa também é importante dentro da abordagem do diretor, já que seus filmes se alinham com os princípios brechtianos de perturbar a narrativa mais tradicional para envolver o público de uma forma mais crítica.

Em “Dogtooth”, as interações entre três irmãos são exploradas enquanto eles são forçados a viver uma existência verdadeiramente bizarra no lugar onde vivem. Os pais das três crianças oferecem pouca ou nenhuma explicação sobre a razão pela qual escolheram ir tão longe não só para proteger, mas também para aprisionar os seus filhos. Além de um desejo bizarro de controlar completamente o desenvolvimento mental e social das crianças, restando ao público só supor os motivos por trás daquilo tudo. Lanthimos usa o isolamento e o comportamento dos pais como meio de explorar o absurdo, a abstração e a falta de sentido da existência humana

Em “A Favorita”, Lanthimos subverte o drama histórico tradicional, concentrando-se nas relações complexas e na dinâmica de poder entre três mulheres na corte real. A narrativa se desvia de um relato histórico direto, enfatizando as motivações e ações dos personagens. Esta inversão de expectativas mantém o público atento e promove um exame crítico das estruturas de poder. O filme comenta o mundo de hoje olhando para o absurdo de quão longe as pessoas irão para ganhar e solidificar o poder, e como esse poder as corrompe. Isso nos lembra que por trás das cortinas da civilização, reinam o caos e a insanidade.

E é através de sua estrutura narrativa que tanto Brecht quanto Lanthimos trabalham comentários sociais e políticos. Lanthimos, como Brecht, usa o meio para explorar normas e convenções sociais, mas de uma forma muito mais satírica. “O Sacrifício do Cervo Sagrado” expõe os aspectos artificiais e superficiais do comportamento humano moderno. As formalidades cotidianas e os temas de conversa passiva são elevados a um nível de importância exagerada, revelando o vazio dos laços sociais. O filme usa presentes, como Steven comprando um relógio para Martin, para destacar o significado irônico atribuído a objetos mundanos. Aqui, uma simples limonada e até crianças são retratados como mercadorias que servem de ponte entre as pessoas. O filme possui uma atmosfera generalizada de desconforto depressivo, desprovida de certezas morais. Yorgos entrega uma crítica muito relevante à passividade humana através do absurdo das ações dos personagens nesse filme.

Lanthimos, por outro lado, não é tão didático como Brecht, já que suas obras exigem um esforço maior para se compreender, ao menos na minha opinião. Mas ele emprega um tipo de diálogo muito semelhante, já que seus personagens tendem a dizer explicitamente o que querem dizer. E quando coisas absurdas são ditas de maneira natural, temos o cômico e o bizarro. Acho que Lanthimos entende que a atuação brechtiana serve também muito bem à comédia e usa isso muito bem. Os diálogos e as expressões dos filmes de Yorgos Lanthimos, assim como as motivações dos personagens, são como são, talvez porque o diretor queira dizer que aquilo não é o foco principal. Não é o que você diz, mas como você diz.

Acho que o próprio diretor explica bem isso em uma entrevista para a Indie Wire:

“Não estamos realmente interessados ​​em apenas representar a realidade no filme. Sempre tentamos estruturar um mundo que possa nos levar a explorar temas sob condições extremas e revelar o absurdo de nossa vida cotidiana e quão ridículo, quão horrível e quão maravilhoso isso pode ser.”

Eu sinceramente acho isso fenomenal.

Um novo arquiteto para o cinema moderno

Yorgos Lanthimos está longe de ser um diretor pretensioso que utiliza técnicas artísticas para estabelecer uma imagem específica. É um diretor que precisa ser acompanhado e valorizado de perto. Suas contribuições à arte e ao cinema podem e devem ir muito além da cena grega, tendo um potencial real de ajudar a moldar um cinema diferente. Lanthimos não cria o absurdo por si só, ele explora questões existenciais sobre a natureza humana, o custo do amor e da vida. Seus filmes desafiam uma classificação fácil, e não se enquadram em gêneros como suspense, sátira ou o que quer que seja. Em vez disso, são descritos como tragédias onde Lanthimos combina o ridículo e o terrível, oferecendo uma nova perspectiva sobre temas cotidianos.

Enfim, seja com elementos brechtianos ou em seu próprio estilo grego, Yorgos Lanthimos consegue entregar narrativas inteligentes, comentários sociais importantes e uma atmosfera perturbadora. Esta mistura de estilos cria uma experiência cinematográfica única que incentiva os espectadores a pensar criticamente sobre os temas apresentados em cada filme, além de ajudar a tornar o diretor um dos nomes mais interessantes do cinema moderno.

Seu mais recente filme – “Poor Things”, promete não fugir de suas características e com certeza vai ser material para muito mais discussões sobre cinema e arte. Espero conseguir escrever algo sobre esse filme também por aqui mais para frente.

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Obrigado por chegar até aqui! Espero que tenha gostado do papo e te convido a dar uma olhada nos outros textos do blog. Um forte abraço!

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Material de Referência

1 – Vanessa, para o “Medium” – “Especial: Estranha onda grega” (https://medium.com/@imaginealgolegalaqui/especial-estranha-onda-grega-8a8a0d4efd2d)
2 – Marilia Kaisar, para o “Medium”“Weird Greek Wave Cinema: a new aesthetic era of Greek cinema” (https://medium.com/wise-things-i-once-wrote/weird-greek-wave-cinema-a-new-aesthetic-era-of-greek-cinema-ca3d04810c4e)
3 – Britannica “Bertold Brecht” (https://www.britannica.com/biography/Bertolt-Brecht)
4 – Wikipedia“Mother Courage and Her Children” (https://en.wikipedia.org/wiki/Mother_Courage_and_Her_Children)
5 – FirstDraftPro“A short guide to absurdism in story-telling” (https://www.firstdraftpro.com/blog/a-short-guide-to-absurdism-in-story-telling)
6 – IndiWire“Yorgos Lanthimos on the Absurd Logic of Satirizing Modern Romance in ‘The Lobster’” (https://www.indiewire.com/features/general/yorgos-lanthimos-on-the-absurd-logic-of-satirizing-modern-romance-in-the-lobster-56869/)

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