
O cinema dentro do cinema: referências e metalinguagem em Tarantino
O primeiro texto sobre Quentin Tarantino aqui do site foi feito para falar sobre comida. Mais precisamente, sobre o emprego dela no cinema desse diretor – uma análise muito interessante, diga-se de passagem. Mas a verdade é que Tarantino se destaca como uma das vozes mais distintivas do cinema. Sua obra funciona ao mesmo tempo como homenagem e reinvenção – muito além de comida. Vamos então tentar explorar essa posição única de Tarantino como cinéfilo, cuja visão enciclopédica da história do cinema lhe permite construir um rico portifólio de referências, releituras e comentários metalinguísticos.
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O Cineasta-Cinéfilo: A Abordagem Cinematográfica de Tarantino
Quentin Tarantino representa uma espécie única de cineasta: o autodidata, cuja formação não veio da escola de cinema, mas de uma prática obsessiva de assistir a filmes. Seu aprendizado provavelmente ocorreu nos corredores da Video Archives, onde o diretor trabalhou e onde devorava produções de diferentes gêneros, épocas e países com apetite voraz. Essa educação informal gerou o que o crítico Jim Hoberman chamou de uma “atenção de cupim a gêneros esquecidos”, algo que se tornaria a marca registrada de Tarantino. Inclusive, uma curiosidade interessante é que após a Video Archives fechar em 1995, Tarantino comprou todo o seu acervo de vídeos e reconstruiu a locadora em sua própria casa.
Ao contrário de cineastas que escondem suas influências, Tarantino as exibe com orgulho, criando o que o estudioso Thomas Leitch define como “um cinema do reconhecimento”, no qual parte do prazer do público vem da identificação das referências. O próprio Tarantino rejeita as acusações de mera cópia.
“Eu roubo de todos os filmes já feitos… Grandes artistas roubam; eles não fazem homenagens.” – Tarantino.

Os filmes de Tarantino funcionam como colagens, combinando elementos díspares da história do cinema em obras novas e coesas que vão além do simples pastiche. Sua obra recompensa o conhecimento cinematográfico, o cinéfilo, oferecendo camadas de significado acessíveis aos espectadores de acordo com seu reconhecimento das referências ali presentes. Em vez de mera imitação, Tarantino transforma suas influências por meio da recombinação e da recontextualização, criando algo distintamente seu.

Um trecho do artigo de Keith Norman Bain, Hyperartificial Cinema and The Art of Cool, mostra como o cinema de Tarantino está profundamente enraizado em um jogo de reconhecimento e intertextualidade, onde o prazer do público vem não só da narrativa, mas da identificação dos clichês do gênero, das citações intertextuais e da alusão consciente:
“Tarantino pode, em certa medida, ser considerado um Godard dos anos 1990, introduzindo uma forma de “cinema puro” que, segundo Tom Whalen (1995:4), está principalmente preocupado com a sua própria artificialidade. É nesse sentido que os filmes de Tarantino (e os de seus imitadores) não se referem realmente à “realidade”, mas ao mundo do cinema. O cinema (para esses “puristas”) tornou-se seu próprio mundo autorreferencial, sua própria “realidade” ou, de fato, sua própria artificialidade. O uso que Tarantino faz de seus momentos cinematográficos favoritos, estilos fílmicos e reviravoltas da cultura pop serve para produzir uma forma de entretenimento que é ao mesmo tempo nova e familiar. Grande parte do prazer de seus filmes reside no reconhecimento de seus clichês de gênero, “citações” intertextuais e alusões convenientes. A preferência de Tarantino é claramente a apropriação deliberada daquilo que ele conhece e admira.”
Westerns Reimaginados
Os chamados spaghetti westerns de Sergio Leone representam talvez a influência mais profunda no estilo visual e na abordagem narrativa de Tarantino. A visão revolucionária do diretor italiano sobre o gênero faroeste nos anos 1960, com sua ambiguidade moral, violência operática e linguagem visual distinta, forneceu a Tarantino um modelo que ele referenciaria ao longo de sua carreira, antes de se envolver explicitamente com o gênero em Django Livre (2012) e Os Oito Odiados (2015).

A Linguagem Visual de Leone no Trabalho de Tarantino pode ser vista em:
- Close-ups extremos, especialmente dos olhos em momentos de tensão.
- Construção ritualística da violência, às vezes focando mais na preparação do que na própria violência.
- Paisagem como personagem, particularmente em Os Oito Odiados.
- Uso de música diegética e não diegética para criar contrapontos emocionais.
Influência Musical de Morricone:
As trilhas icônicas de Ennio Morricone para os filmes de Leone encontram referência direta no trabalho de Tarantino, mais explicitamente em Kill Bill: Vol. 1, que apresenta composições de Morricone em Death Rides a Horse. Essa relação culminou com Morricone compondo uma trilha original para Os Oito Odiados, que lhe rendeu seu primeiro Oscar competitivo.
Django Livre de Tarantino toma emprestado o título e o nome do protagonista do spaghetti western Django (1966), de Sergio Corbucci, ao mesmo tempo em que reimagina o personagem dentro de uma narrativa sobre a escravidão nos Estados Unidos, demonstrando como Tarantino transforma suas influências, em vez de apenas replicá-las.
Influências Orientais: Cinema de Artes Marciais e as Homenagens de Kill Bill
Embora o envolvimento de Tarantino com o cinema de artes marciais tenha atingido seu ápice com os volumes de Kill Bill, as influências orientais estão por toda a sua filmografia. Sua reverência pelo trabalho de diretores como Akira Kurosawa, King Hu e pelos subgêneros de artes marciais (particularmente de Hong Kong e Japão) se manifesta no estilo visual, na estrutura narrativa e nos elementos temáticos ao longo de sua obra.
Estética Shaw Brothers: Kill Bill adota as sensibilidades estéticas das produções do Shaw Brothers Studios, desde o logotipo Shawscope de abertura até o uso de técnicas de zoom exageradas e efeitos sonoros intensificados durante as sequências de combate.
Lady Snowblood: O filme de vingança de Toshiya Fujita, de 1973, fornece um modelo claro para a narrativa de Kill Bill, centrada em uma mulher injustiçada em busca de sangrenta vingança. As semelhanças visuais, incluindo um confronto na neve e a protagonista vestida de branco, demonstram que as referências de Tarantino são específicas, e não gerais.
Iconografia de Bruce Lee: Do macacão amarelo de Uma Thurman (inspirado no de Bruce Lee em Game of Death) ao personagem Pai Mei (tirado de diversos filmes do Shaw Brothers), Tarantino celebra o legado de Lee enquanto provoca polêmica com sua representação de Lee em Era Uma Vez em… Hollywood.



Tarantino não se limita a apenas um “empréstimo” dessas influências, mas as transforma por meio de uma tradução cultural. Em novos contextos, como ao juxtapor combates de espadas japonesas com pistas musicais de spaghetti western, ele cria conexões cinematográficas que dialogam com a história do cinema, ao mesmo tempo em que estabelece suas próprias relações estéticas.
Cinema de Exploração: A Celebração das Estéticas de B-Movie por Tarantino
O Legado Grindhouse:
O cinema de exploração, aqueles filmes de baixo orçamento voltados para públicos de nicho com conteúdos sensacionalistas, representa uma influência fundamental nas sensibilidades de Tarantino. Esses filmes, frequentemente exibidos em teatros urbanos grindhouse durante os anos 70, celebravam o excesso, os tabus quebrados e uma certa energia rebelde que Tarantino sempre valorizou.
Sua colaboração com Robert Rodriguez no Grindhouse (2007), duplo lançamento, celebra explicitamente essa tradição, incluindo danos artificiais à película, rolos faltando e trailers falsos. O segmento de Tarantino, À Prova de Morte, reimagina o subgênero “carsploitation” enquanto presta homenagem a filmes como Vanishing Point (1971) e Dirty Mary, Crazy Larry (1974).
Está em inglês, mas aqui tem uma ótima entrevista dos dois sobre o tema.
“O que tornava esses filmes de exploração grandiosos é que eles eram de baixo orçamento, tentavam competir com os grandes estúdios, mas não podiam pagar por grandes estrelas. Então, tinham o que você chamaria de “elementos exploráveis”, como sexo e violência. E você os assistia nesse ambiente grindhouse, onde passavam dois ou três filmes de uma vez. As pessoas que frequentavam esses cinemas tinham uma percepção totalmente diferente do cinema americano, porque viam coisas que não estavam no circuito principal. E Quentin, é claro, viu todos eles.” – Robert Rodriguez tem entrevista à Chris Nashawaty
As influências de exploração de Tarantino, no entanto, vão além das escolhas estéticas. Ele também tem trabalhado para preservar esse patrimônio cinematográfico. Uma prova disso foi a aquisição do New Beverly Cinema, em Los Angeles, que frequentemente exibe cópias em 35mm de clássicos do cinema de exploração ao lado de obras mais canônicas.

Vamos falar de Blaxploitation e Nazisploitation: Blaxploitation é um subgênero do cinema de exploração americano do início dos anos 1970, caracterizado por protagonistas negros em papéis centrais, frequentemente retratando figuras duronas e independentes em cenários urbanos. Já Nazisploitation, é um subgênero do cinema de exploração e do sexploitation que retrata nazistas cometendo crimes sexuais, frequentemente como guardas de campos de concentração ou supervisores de prisões durante a Segunda Guerra Mundial.
Jackie Brown (1997) representa o envolvimento mais direto de Tarantino com o cinema blaxploitation, escalando a ícone do gênero Pam Grier no papel principal, ao mesmo tempo em que subverte expectativas por meio de um estudo de personagem mais sofisticado do que o gênero geralmente permitia. Filmes como Thriller: A Cruel Picture (1973) influenciam as narrativas de vingança de Kill Bill e elementos de À Prova de Morte, embora Tarantino normalmente omita a violência sexual típica do subgênero. O controverso subgênero Nazisploitation é reimaginado em Bastardos Inglórios (2009), que inverte os clichês ao posicionar os nazistas como vítimas de vingança violenta, em vez de perpetradores.

Inspirações do Cinema de Arte Europeu: Godard e Além
Embora as sensibilidades populistas de Tarantino frequentemente levem os críticos a focarem nas influências do cinema de gênero, sua obra demonstra igualmente um entendimento sofisticado do cinema de arte europeu, particularmente da Nouvelle Vague francesa. As estruturas narrativas experimentais, as técnicas autorreferenciais e a abordagem lúdica às convenções cinematográficas que caracterizam diretores como Jean-Luc Godard encontram clara expressão na filmografia de Tarantino.
Mais um trecho do artigo de Keith Norman Bain:
“Um assumido entusiasta de Godard, Tarantino escreve roteiros que remetem ao trabalho do cineasta francês antes de 1967 — em estilo, se não em política (seus filmes são os “filhos de Godard e da Coca-Cola”). Cães de Aluguel (Reservoir Dogs) não apenas dialoga com as curvas narrativas de Kubrick em O Grande Golpe (The Killing, 1956), mas, em sua linearidade tortuosa, niilismo casual e autoconsciência lúdica, ecoa filmes de Godard como Bando à Parte (Bande à part, 1964), Alphaville (Alphaville, une étrange aventure de Lemmy Caution, 1965) e O Demônio das Onze Horas (Pierrot le fou, 1965). Já Pulp Fiction também apresenta uma estrutura lúdica, com três histórias interligadas emolduradas por um prólogo e um epílogo. Embora o título remeta à literatura pulp do passado, a narrativa e os personagens vêm diretamente do repositório da cultura pop.”
Cortes Secos e Disrupção Temporal: O uso revolucionário de cortes secos por Godard em Acossado (1960) encontra paralelo na disposição de Tarantino de romper a cronologia e empregar transições abruptas, particularmente em Pulp Fiction (1994).
Diálogo como Filosofia: As longas conversas filosóficas que caracterizam o trabalho de Godard — nas quais os personagens discutem ideias em vez de avançar a trama — influenciam diretamente as famosas sequências de diálogo de Tarantino, que igualmente priorizam digressões e exploração intelectual.
Autorreferencialidade: Assim como Godard, Tarantino cria filmes que reconhecem seu status de filmes, empregando títulos de capítulos, enquadramentos não convencionais e referências que chamam atenção para a natureza construída do cinema.
Desconstrução de Gênero: Ambos os cineastas abordam o gênero de forma crítica, utilizando convenções estabelecidas enquanto simultaneamente expõem e subvertem seus mecanismos subjacentes e pressupostos ideológicos.
Além de Godard, Tarantino também se inspira em outras tradições europeias. A tensão prolongada de suas cenas de diálogo deve-se a Claude Chabrol, enquanto o uso de música reflete as abordagens inovadoras de diretores como Michelangelo Antonioni. A influência dos filmes italianos giallo, particularmente os de Mario Bava e Dario Argento, manifesta-se em sua violência estilizada e composições visuais.
As influências europeias de Tarantino só reforçam sua habilidade de sintetizar referências culturais “altas” e “baixas”, borrando as distinções tradicionalmente rígidas entre “cinema de arte” e “filmes de exploração”.
Cultura Pop como Moeda Narrativa: Música, Televisão e Referências Culturais
A abordagem de Tarantino à música de cinema é com certeza uma de suas assinaturas mais fortes. Em vez de encomendar trilhas originais, ele geralmente explora faixas obscuras das décadas de 1960 e 1970, recontextualizando-as para criar novas associações. Essa “arqueologia musical” funciona como outra forma de colecionismo, com Tarantino resgatando canções esquecidas da mesma forma que celebra filmes negligenciados.
Momentos musicais icônicos em seus filmes: a cena do corte de orelha ao som de Stuck in the Middle With You em Cães de Aluguel; O uso de Bang Bang (My Baby Shot Me Down) de Nancy Sinatra em Kill Bill: Vol. 1. Dois exemplos que demonstram como Tarantino cria dissonância entre elementos sonoros e visuais para gerar impacto emocional.
Além da música, os filmes de Tarantino estão cheios de referências à televisão, quadrinhos e à cultura pop em geral. Seus personagens frequentemente comentam marcas fictícias (como os cigarros Red Apple ou o Big Kahuna Burger), programas de TV e outros elementos culturais. Isso cria o que o estudioso de mídia Henry Jenkins chama de “cultura de convergência”, na qual diferentes mídias se intersectam e se influenciam mutuamente.
Os produtos fictícios recorrentes de Tarantino criam um universo compartilhado e demonstram sua atenção a detalhes de construção de mundo que vão além da narrativa principal. Seus personagens muitas vezes enquadram suas experiências através da televisão que assistiram, como na discussão sobre Get Christie Love! em Cães de Aluguel ou nas referências a Kung Fu em Pulp Fiction. Além disso, a realidade ampliada de seus filmes, particularmente em Kill Bill, com a sequência de anime, se inspira nas técnicas narrativas e na linguagem visual dos quadrinhos.

Universo Autorreferencial: Conexões Entre os Filmes de Tarantino
Tarantino confirmou que seus filmes existem dentro de dois universos distintos, mas relacionados: o universo do “mundo real” e o universo do “filme-filme” (filmes que os personagens de seu universo do “mundo real” assistiriam). Essa construção elaborada cria uma estrutura metacinematográfica que recompensa a atenção detalhada e reforça a ideia de que o cinema comenta sobre si mesmo.
“Existe o universo ‘Mais Real que o Real’, certo, e todos os personagens habitam esse universo. Mas então existe esse universo de filmes. E assim, Um Drink no Inferno, Kill Bill, todos acontecem nesse universo especial de filmes. Basicamente, quando os personagens de Cães de Aluguel (Reservoir Dogs) ou Pulp Fiction vão ao cinema, Kill Bill é o que eles vão assistir. From Dusk Till Dawn é o que eles assistem.”
Laços Familiares Compartilhados: personagens de diferentes filmes são revelados como parentes. Você sabia que Mr. Blonde (Vic Vega) de Cães de Aluguel é irmão de Vincent Vega em Pulp Fiction? Pois é, da mesma forma, Lee Donowitz em Amor à Queima-Roupa (roteirizado por Tarantino) é filho do Sgt. Donny Donowitz em Bastardos Inglórios. Legal, né?
Personagens Secundários Recorrentes: Personagens como Earl McGraw e sua filha Dakota aparecem em múltiplos filmes (Kill Bill, À Prova de Morte), criando continuidade entre narrativas aparentemente não relacionadas.
Consistência de Marcas: Marcas fictícias como os cigarros Red Apple e o Big Kahuna Burger aparecem consistentemente ao longo do universo de Tarantino, reforçando o mundo compartilhado apesar dos cenários e períodos diversos.
Quando a Referência se Torna Reinvenção
Embora alguns críticos às vezes tenham descartado Tarantino como um mero copiador, uma análise mais detalhada, como a que esse texto tenta fazer, mostra como sua abordagem referencial vai além da simples homenagem para se tornar uma reinvenção genuína. Tarantino combina influências díspares de maneiras inesperadas, criando algo distintamente novo: uma linguagem cinematográfica que dialoga com a história do cinema ao mesmo tempo em que estabelece seu próprio vocabulário inovador.
Recapitulando: o gênio de Tarantino não está em inventar técnicas completamente novas, mas sim em recombinar elementos existentes de formas surpreendentes, justapondo artes marciais com música de spaghetti western ou violência de exploração com estruturas narrativas de cinema de arte. Sua abordagem referencial cria múltiplos níveis de envolvimento, permitindo que espectadores casuais apreciem a narrativa superficial, enquanto recompensa cinéfilos que reconhecem as referências com uma apreciação mais profunda. Além disso, ao incorporar técnicas e estéticas de gêneros negligenciados e filmes esquecidos, Tarantino atua como um preservador da história do cinema, apresentando a novas gerações tradições cinematográficas que, de outra forma, poderiam nunca conhecer.
Essa qualidade transformadora é particularmente evidente em Bastardos Inglórios, que começa como um filme aparentemente convencional da Segunda Guerra Mundial, na tradição de Os Doze Condenados, antes de evoluir para uma reflexão metacinematográfica sobre como o próprio cinema pode reescrever a história. O clímax do filme, onde o próprio filme físico se torna instrumento de destruição nazista, funciona como uma declaração poderosa sobre a capacidade do cinema de transformar a realidade, e não apenas refletí-la.

A abordagem de Tarantino demonstra o que o teórico literário Harold Bloom chamou de “ansiedade da influência”: a maneira como os artistas precisam dialogar com seus predecessores para criar seu próprio espaço criativo. Em vez de ser diminuído por suas influências, o trabalho de Tarantino ganha força através de seu diálogo com a história do cinema.
“A ansiedade da influência é um aspecto fundamental da luta do poeta para abrir um espaço para si mesmo.” – Harold Bloom
O Legado do Meta-Cinema de Tarantino: Influência no Cinema Contemporâneo
À medida que Tarantino se aproxima do que afirma ser a conclusão de sua carreira como diretor (tendo declarado que se aposentará após seu décimo filme), sua influência no cinema contemporâneo tornou-se cada vez mais evidente. Uma geração de cineastas que cresceu assistindo aos seus trabalhos absorveu sua abordagem referencial, seu conhecimento enciclopédico da cultura pop e sua disposição de misturar influências culturais “altas” e “baixas”.
Diretores tão diversos quanto Edgar Wright, Rian Johnson e Jordan Peele demonstram a influência de Tarantino em suas explorações autoconscientes de gênero. As referências à cultura pop e o humor autorreferencial do Universo Cinematográfico Marvel refletem aspectos da abordagem de Tarantino, embora de forma mais limitada comercialmente.
Talvez o mais significativo seja que Tarantino ajudou a legitimar o conhecimento cinematográfico como uma forma de capital cultural. Em uma era em que os serviços de streaming democratizaram o acesso à história do cinema, sua celebração de referências obscuras e da literacia cinematográfica ressoa com públicos que valorizam cada vez mais esse tipo de conhecimento. Seu sucesso demonstrou que o cinema referencial poderia alcançar tanto aclamação crítica quanto sucesso comercial, vencendo dois Oscars de roteiro.

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Vivemos um momento cultural em que as discussões sobre originalidade criativa giram muito em torno de apropriação e influência. Nesse sentido, o trabalho de Tarantino é um modelo muito bom de como a referência pode se tornar inovação, de como olhar para o passado pode, paradoxalmente, criar algo distintamente novo. A arte nunca surge do vácuo, mas existe em constante diálogo com o que veio antes, transformando essas influências em algo singular.
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