Cinema

Whiplash: O Lado Obscuro da Grandeza e os Perigos da Obsessão

É incrível como vivemos em um mundo que nos exige constantemente buscar por “algo maior“. E isso pode significar qualquer coisa que nos traga um senso de realização. No entanto, muitas vezes, isso nos coloca em uma busca quase que desenfreada pela excelência. Muitas pessoas buscam a excelência porque isso lhes proporciona essa sensação de realização pessoal. É como se houvesse um impulso interno para maximizar seu potencial, ultrapassar limites e experimentar uma sensação de plenitude. Essa busca permite que as pessoas se desafiem, cresçam como indivíduos e encontrem satisfação em suas conquistas. Até aqui, tudo muito bonito, não é mesmo?

Bem, nesse nosso desejo por excelência e realização, dois fatores frequentemente entram em jogo: talento e obsessão. Ambos são geralmente atribuídos às histórias de sucesso de inúmeras pessoas em diversos campos, mas diferem em sua natureza e impacto. O talento costuma ser visto como um dom inato, enquanto a obsessão é o impulso incansável e a dedicação a um objetivo específico. Há todo um papo longo em torno desse assunto nas discussões sobre Messi x Cristiano Ronaldo, por exemplo. Mas não é sobre futebol que quero falar aqui.

Lionel Messi e Cristiano Ronaldo foram bastante usados ao longo de suas carreiras como peças de comparação nessa discussão de Talento e Obsessão.

Apesar de o talento poder ser inato, a obsessão é cultivada. Ela requer disciplina, perseverança e um profundo amor pelo que se faz. A obsessão pode levar uma pessoa a desenvolver habilidades além das que são naturais, superar expectativas e alcançar feitos extraordinários. Ela pode vencer o talento. No entanto, por trás dessa dedicação incansável, há um caminho perigoso que, se não for controlado, pode levar a consequências graves.

O filme “Whiplash“, dirigido por Damien Chazelle, proporciona uma exploração fascinante da busca pela grandeza, da natureza destrutiva do perfeccionismo e da obsessão, bem como da complexa dinâmica do abuso e do poder. É um drama intenso que ilustra os custos associados a essa busca muitas vezes desenfreada pela excelência, servindo como um alerta sobre o lado sombrio da ambição e o preço que ela pode cobrar no bem-estar e nos relacionamentos de alguém.

O custo da grandeza

Whiplash é um filme que nos leva a questionar muitas coisas e é daqueles que nos deixam refletindo por um bom tempo depois de assistirmos. Particularmente, é um dos meus filmes favoritos.

No centro dessa trama está a história de Andrew Neiman, um jovem e talentoso baterista de jazz com um desejo inabalável de se tornar um grande músico. A busca incansável de Andrew por seu sonho é o foco principal, enquanto ele se esforça para impressionar seu exigente professor de música, Terence Fletcher. Acompanhamos o comprometimento incrível e os sacrifícios necessários para alcançar o auge em qualquer área, ao mesmo tempo em que testemunhamos a dinâmica abusiva entre Andrew e Fletcher. Mas vamos abordar esse assunto depois.

“Not quite my tempo”

Whiplash retrata com maestria os sacrifícios pessoais que Andrew faz em sua busca pela grandeza. Ele é consumido pela sua arte, chegando a praticar até que suas mãos literalmente sangrem e negligenciando outros aspectos de sua vida. As relações pessoais sofrem, incluindo seu relacionamento amoroso e sua conexão com sua própria família. Isso nos mostra o preço que essa dedicação obstinada pode ter no bem-estar e nos laços sociais de uma pessoa. Foi assim que Andrew terminou seu relacionamento com sua namorada, Nicole:

Andrew: É por isso que a gente nao pode ficar junto. Eu pensei bastante e vai acontecer o seguinte: eu vou continuar indo atrás do que eu quero, e isso vai tomar cada vez mais o meu tempo. E eu não vou ter tempo para ficar com você. E mesmo que eu fique com você eu só vou pensar em tocar bateria. Eu vou pensar no Jazz e nas partituras também e, por causa disso, você vai ficar com raiva de mim. Você vai querer que eu toque menos bateria e fique mais com você por que voce nao vai se sentir valorizada. E eu não vou poder fazer isso. No fim, eu que vou ficar com raiva de você por pedir para eu tocar menos. A gente vai começar a se odiar e aí a coisa vai ficar bem feia. Então, por esses motivos, eu prefiro terminar assim. Porque eu quero ser grande.

Nicole: E voce nao é?

Andrew: Eu quero ser um dos grandes.

Nicole: E eu impediria você de fazer isso?

Andrew: Sim.

E esse preço é bem alto quando está relacionado à busca por validação externa. Veja, Andrew procura validação e aprovação de Fletcher, acreditando que isso seja uma medida fundamental de seu próprio valor e sucesso. Essa busca pelo reconhecimento de seu mentor o leva a suportar abusos emocionais intensos, manipulação e um relacionamento tóxico entre professor e aluno. No entanto, será que os fins sempre justificam os meios?

Os limites do perfeccionismo, os abusos e as dinâmicas de poder

“Não existe expressão mais prejudicial do que ‘bom trabalho’.”

As cenas entre Andrew e Fletcher são bastante impactantes de se assistir, pois o instrutor ultrapassa os limites do aceitável em relação às exigências e aos próprios limites de Andrew. O que torna esse filme tão bem feito e interessante é que tanto Andrew quanto Fletcher possuem uma coisa em comum: ambos são obcecados pelo que desejam. Quando olhamos por essa perspectiva, percebemos que cada um possui suas motivações para ocupar a posição que ocupam. Vou tentar explicar.

Desde o início, tudo o que Andrew deseja é provar a si mesmo como um grande baterista de jazz. Seu desejo ardente por validação o leva a suportar o abuso de Fletcher, pois ele vê as atitudes de seu mentor como um passo fundamental para alcançar seus sonhos. Andrew acredita que os métodos brutais de Fletcher são necessários para levá-lo ao limite, transformando-o em um baterista excepcional. Sua sede por grandeza e o medo da mediocridade o cegam para os efeitos prejudiciais da maneira como ele vem sendo treinado.

O sangue de Andrew em sua bateria é fruto de seu treino intenso e abusivo.

Por outro lado, Fletcher parece ser motivado pela busca da excelência em seus alunos. Ele acredita firmemente que deve empurrá-los além de seus limites para extrair todo o seu potencial. No entanto, à medida que o filme avança, fica claro que suas motivações estão entrelaçadas com seu próprio ego e desejo de controle. Ele manipula e abusa de seus alunos, acreditando que criar um ambiente hostil eliminará os “mais fracos” e produzirá gênios musicais. Essa sede de poder e domínio por parte de Fletcher mancha seus métodos de ensino, causando danos irreversíveis à saúde mental de seus alunos.

Fletcher: Eu estava lá para empurrar as pessoas para além do que era esperado delas. Eu acredito que essa é uma necessidade absoluta.

Essas motivações e comportamentos de ambos criam um ciclo abusivo entre mentor e aluno. O comportamento de Fletcher desperta as inseguranças mais profundas de Andrew e o medo do fracasso, forçando-o a suportar maus-tratos em busca de validação. Isso gera um pensamento tóxico em que a vítima está disposta a tolerar mais abusos na esperança de alcançar a grandeza. E através dessa relação, Whiplash nos obriga a refletir sobre o abuso e as dinâmicas de poder em nossa sociedade. Quais sacrifícios estamos dispostos a fazer em busca da grandeza e quais limites éticos devemos estabelecer?

Whiplash lança luz sobre os ideais inatingíveis que os indivíduos podem perseguir. A busca de Andrew pela perfeição, juntamente com os métodos de ensino exigentes de Terence Fletcher, demonstra os perigos de se fixar em uma meta desumana. Além disso, desafia a noção de que o sucesso depende apenas da perfeição. O filme serve como uma defesa de uma cultura que promova o crescimento, a paixão e a orientação sem sacrificar o bem-estar dos indivíduos.

O poder subversivo de um ótimo final

Whiplash é definitivamente um filme singular. Apesar de todas as reflexões que invariavelmente são despertadas ao longo da narrativa, ele nos apresenta um desfecho fora do comum, especialmente se considerarmos as ações de Fletcher como passíveis de punição.

De certa forma, Fletcher realmente enfrenta uma punição por seus métodos de ensino, mas não é sobre isso que Whiplash constrói seu desfecho.

Durante todo o filme, a relação entre Andrew e Fletcher é caracterizada por uma dinâmica de poder tóxica, na qual Fletcher sujeita Andrew a abusos físicos e emocionais em busca da grandiosidade. No entanto, a cena final desafia essas expectativas ao mostrar a recusa de Andrew em ser quebrado pelo abuso e sua determinação em afirmar sua própria autoridade artística.

No clímax do filme, Andrew assume o controle da banda e os conduz por um caminho diferente do pretendido por Fletcher. Ao afirmar sua autonomia e liderar a performance, Andrew desafia o sistema opressivo estabelecido por Fletcher. Esse ato “rebelde” representa um momento profundo de crescimento e fortalecimento para Andrew, simbolizando sua rejeição à dinâmica de poder abusiva e sua aceitação de sua própria voz artística.

Essa subversão na cena final está alinhada com os temas de individualidade e autonomia do filme. Reforça a importância de resistir a sistemas opressores e nos inspira a questionar nossas próprias vidas e escolhas. O desfecho de Whiplash cria uma impressão duradoura no público, tornando-se um momento crucial que permanece em suas mentes muito tempo depois do término do filme. Essa experiência cinematográfica de testemunhar uma reviravolta surpreendente e suas implicações profundas contribui para a grandiosidade da obra.

Em suma, a narrativa poderosa de Whiplash e as atuações impecáveis de Miles Teller como Andrew e J.K. Simmons como Fletcher oferecem uma exploração convincente do preço a ser pago pela grandeza e dos perigos da obsessão. No entanto, o filme também nos envolve em um nível emocional e intelectual, proporcionando uma experiência cinematográfica poderosa e instigante que permanece em nossas memórias. É um filme para ser guardado eternamente no coração.

Whiplash foi lançado em 2014 e recebeu vários prêmios e indicações, ganhando o Oscar de Melhor Edição de Filme e Melhor Mixagem de Som, e também sendo indicado para Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado. A interpretação de Fletcher por Simmons lhe rendeu os prêmios da Academia, BAFTA, Critics ‘Choice, Globo de Ouro e Screen Actors Guild de Melhor Ator Coadjuvante. Vale a pena conferir!

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Obrigado por chegar até aqui! Espero que tenha gostado do papo e te convido a dar uma olhada nos outros textos do blog. Um forte abraço!

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