
O Soft Porn e a Sociedade da Transparência
Existe um conceito muito interessante de sociedade chamado “sociedade disciplinar”, desenvolvido por Michel Foucault, que fala de um modelo de organização social que emerge a partir do século XVIII, caracterizado pelo uso de técnicas de poder voltadas para o controle, a normalização e a eficiência dos corpos e comportamentos individuais. Em algumas obras, como “Vigiar e Punir”, Foucault descreve como instituições como prisões, escolas, hospitais e quartéis implementam mecanismos disciplinares, como a vigilância constante, a divisão do tempo e do espaço, e a classificação dos indivíduos. Parece coisa de George Orwell, mas não é. Esses dispositivos são reais e buscam moldar os sujeitos para que se tornem dóceis, produtivos e conformes às normas sociais, criando uma sociedade onde o poder não é apenas repressivo, mas também produtivo, ao gerar comportamentos previsíveis e úteis ao sistema. Uma sociedade disciplinar. Interessante, não é?
A principal diferença desse modelo de sociedade está na sua capilaridade, pois o poder disciplinar não emana apenas do Estado, mas opera de forma difusa, por meio de práticas cotidianas e institucionais que internalizam a disciplina nos indivíduos. Por exemplo, o exame (como provas escolares ou avaliações médicas) e o panoptismo (a ideia de ser observado sem saber quando) incentivam a autorregulação, fazendo com que as pessoas se vigiem e se ajustem às expectativas sociais. Para Foucault, esse modelo não elimina a liberdade, mas a reconfigura, pois os indivíduos são condicionados a agir dentro de limites estabelecidos pelo poder disciplinar, que se apresenta como natural e necessário para o funcionamento da sociedade moderna.
Mas por que eu estou falando sobre isso? Porque eu acho que os tempos mudaram e, hoje, somos condicionados por outras maneiras, dentre elas, o desejo, muito explorado através do soft porn.
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Outro dia postei aqui um texto sobre Byung-Chul Han e como sua leitura pode nos ajudar a compreender e, quem sabe, se livrar de vícios como o vício em celular. Hoje quero voltar a trazer o Han para o site, mas, dessa vez, para discutir um tema diferente. Em seu texto “A Sociedade da Transparência“, Byung-Chul Han argumenta que vivemos em um tempo onde a exposição total é não apenas incentivada, mas exigida. Diferentemente da sociedade disciplinar descrita por Foucault, que controlava por meio da vigilância e da repressão, a sociedade da transparência opera pela sedução da visibilidade. Tudo deve ser exposto, tudo deve ser mensurado e, sobretudo, tudo deve ser CONSUMÍVEL. Nesse contexto, o desejo, algo historicamente privado, complexo e, às vezes, subversivo, é cooptado e transformado em mercadoria.
Dentro da cultura pop, essa mercantilização se manifesta de forma clara em um fenômeno que chamamos de soft porn: o erotismo estilizado, presente em propagandas, séries e redes sociais, disfarçado de expressão de liberdade sexual, mas que não passa de um produto cuidadosamente projetado para capturar atenção e gerar lucro. Como Han aponta, a transparência elimina o mistério, o que é essencial para o desejo genuíno. Quando corpos, gestos e até emoções são massivamente expostos em 4K, eles perdem sua profundidade e se tornam objetos de consumo imediato. O desejo, que poderia (e deveria) ser uma força de conexão ou transgressão, é reduzido a um clique, um like, uma compra.

A Lógica do Mercado e a Perda da Intimidade
Byung-Chul Han argumenta, portanto, que a transparência é intrinsecamente pornográfica, pois ela remove camadas de significado e expõe tudo à lógica do mercado. Na estética do soft porn, a sensualidade é padronizada para atender a um público global. Corpos são esculpidos por filtros digitais, poses são ensaiadas para maximizar o impacto visual, e o erotismo é descontextualizado de qualquer narrativa mais profunda. Pegue as redes sociais, por exemplo, onde influencers performam sensualidade em vídeos de 15 segundos, muitas vezes vendendo produtos que vão desde roupas até suplementos. O desejo, aqui, não é mais um fim, mas um meio para um fim econômico.
Essa dinâmica, claro, tem consequências psicológicas e sociais. A filósofa Eva Illouz, em “Por que o amor dói”, complementa Han ao sugerir que o capitalismo emocional transforma relações humanas em transações. Veja, o soft porn, especialmente na cultura pop, reforça essa lógica: ao consumir imagens erotizadas, somos condicionados a buscar gratificação instantânea, o que enfraquece a capacidade de cultivar intimidade ou desejo autêntico. Muitos estudos psicológicos mostram que a exposição constante a conteúdos hiperestimulantes reduz a tolerância à ambiguidade e à lentidão, elementos essenciais para relações humanas significativas. Sherry Turkle…
Em animes, por exemplo, cenas gratuitas de nudez parcial ou poses sugestivas, como as onipresentes calcinhas à mostra em séries shonen ou as protagonistas hipersexualizadas, por vezes rompem a coerência narrativa, o que é um reflexo da pressão econômica para atrair audiências masculinas jovens, mas também um sintoma dessa transparência que Han critica. O desejo é banalizado, reduzindo personagens complexos a objetos de contemplação, o que aliena parte do público e reforça estereótipos de gênero. A pesquisadora Susan Napier, em sua pesquisa, aponta como essa hipersexualização pode limitar a profundidade emocional dos animes, transformando a arte em produto descartável.

Ou pior, em um contexto onde animes são consumidos globalmente por crianças e adolescentes, o soft porn normaliza a erotização precoce, minando a possibilidade de narrativas que valorizem a humanidade acima do apelo visual.
O Paradoxo da Liberdade
Han também destaca que a sociedade da transparência promete liberdade, mas entrega coerção. No caso do soft porn, a suposta emancipação sexual, aquela onde indivíduos, especialmente mulheres, podem expressar sua sensualidade, é frequentemente uma armadilha. A liberdade de ser “sexy” vem com um script rígido: padrões de beleza inatingíveis, performances calculadas e a pressão constante para se expor. Como Han escreve, a transparência não é um espaço de liberdade, mas de controle. Na cultura pop, isso se reflete na forma como artistas ou influencers são celebrados por sua “ousadia”, mas apenas enquanto seguem as regras do mercado. Aqueles que desafiam esses padrões, seja por corpos não normativos ou por rejeitar a hipersexualização, muitas vezes são marginalizados.
A autoexploração é muito mais eficiente do que a exploração do outro, pois é acompanhada por um sentimento de liberdade; o sujeito do desempenho submete-se a uma coação livre, autogerada. Essa dialética da liberdade também está presente no fundamento da sociedade de controle. A autoiluminação completa é muito mais eficiente do que a iluminação feita pelos outros, pois vem acompanhada do sentimento de liberdade.
Quer um outro exemplo? Em plataformas como o Instagram, os algoritmos priorizam conteúdos com apelo erótico para maximizar engajamento, uma vez que postagens com elementos de soft porn recebem mais interações do que conteúdos neutros. O resultado é um óbvio ciclo vicioso: criadores de conteúdo são incentivados a produzir mais material erotizado, enquanto os consumidores são bombardeados com estímulos que normalizam a transparência como valor cultural.

Resistir à Transparência?
Como combater isso, então? Bom, Byung-Chul Han sugere que a resistência à sociedade da transparência envolve recuperar o espaço do mistério, do não dito, do opaco. Se aplicarmos isso de alguma forma ao soft porn, isso significaria questionar a naturalização do erotismo como produto. Por que aceitamos que a sensualidade seja moldada por diretores de marketing, em primeiro lugar? Por que o desejo deve ser performado para uma audiência global? Recuperar o desejo como algo íntimo e não mercantilizado é necessário, mas exige um esforço consciente: consumir cultura de forma crítica, valorizar narrativas que humanizem em vez de objetificar e, acima de tudo, reconhecer que nem tudo precisa ser exposto.
Na prática, isso pode significar dar voz a mais artistas que desafiam a estética do soft porn, como aqueles que exploram a sexualidade de forma não convencional ou que priorizam a narrativa sobre a sedução visual. Mas também envolve educar as novas gerações para decodificar as mensagens da cultura pop, entendendo que o desejo não precisa ser um espetáculo para ser válido.
Essa sociedade da transparência, como descrita por Han, transforma o desejo em uma engrenagem do capitalismo, e o soft porn na cultura pop é uma de suas manifestações mais visíveis. Ele nos seduz com a promessa de liberdade, mas nos prende em um ciclo de consumo e exposição. E não entenda mal, isso não tem nada a ver com rejeitar o erotismo, mas sim questionar quem o controla e com que propósito. Como consumidores de cultura, temos a chance de resistir, escolhendo valorizar o que é humano, complexo e, talvez, um pouco menos transparente.
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