A IA, a arte e a polêmica do Studio Ghibli
Existe um debate antiiiigo que questiona o que é arte, e quem tem ou teria o direito de criá-la. Esse debate tem provocado discussões acaloradas há séculos. Seja em galerias, tribunais, palestras ou mesmo processos judiciais, nós frequentemente debatemos sobre a essência da criatividade, o valor da originalidade, o direito à expressão. “Quem é dono de uma ideia?”
E perdemos completamente o ponto.
Acontece que as recentes imagens geradas por IA no estilo do Studio Ghibli nos obrigam a encarar essas questões de uma forma mais urgente e desconfortável. Pode parecer estranho falar de integridade artística e originalidade nesse contexto: um cenário de corporações bilionárias, algoritmos de aprendizado de máquina, bancos de dados de treinamento extraídos da internet, violações de direitos autorais e brechas legais. Ainda assim, esse debate prova que a arte, como tudo que é tocado pelas mãos humanas (e, agora, pelas artificiais), é tanto sobre ética quanto sobre estética.

Se você por alguma razão está lendo isso no futuro, me permita te situar: o ano é 2025. A IA está em toda parte—nos feeds das redes sociais, nas produções de Hollywood, nos bastidores dos mercados digitais, no mercado, no boteco, em toda parte. Eis que a mais poderosa ferramenta da OpenAI, o ChatGPT, capaz de imitar a elegância pintada à mão dos filmes de Hayao Miyazaki, sequestrou toda a internet. Literalmente da noite para o dia, uma avalanche de imagens geradas por IA no fofo estilo Ghibli invadiu Twitter, Instagram e TikTok. No meio dessa bagunça, ressurge uma antiga entrevista de Miyazaki, na qual ele chama a arte gerada por IA de “um insulto à própria vida”. A partir daí, essa conversa se tornou bastante amarga.

“Estou completamente enojado. Se você realmente quer fazer coisas assustadoras, pode ir em frente e fazer. Eu nunca desejaria incorporar essa tecnologia ao meu trabalho. Sinto fortemente que isso é um insulto à própria vida” – veja
Eu só não consigo deixar de pensar que em algum lugar lá do Vale do Silício, executivos de tecnologia contam seus lucros.
Enquanto a internet, para variar, se divide em discussões, a questão ética permanece em aberto: essa tecnologia é um tributo ou um roubo? Concorde você ou não, a resposta não é simples. Atualmente, artistas tradicionais lutam para sobreviver num espaço onde corporações monetizam a criatividade sem consequências. Desse modo, as imagens geradas por IA no estilo Ghibli são como um paradoxo da era digital. Elas ao mesmo tempo que celebram um legado artístico são também uma reprodução não licenciada. Um novo horizonte para a criatividade – e um novo horizonte para a exploração.
O paradoxo da originalidade
Nesta história de fronteiras difusas, a polêmica da IA e do Studio Ghibli revela ainda o elefante na sala em nossa cultura digital. Vivemos numa era em que algoritmos remixam, reimaginam e reutilizam conteúdos em escala, mas as estruturas legais e éticas para regulá-los permanecem frágeis. Veja, no passado, os artistas se inspiravam em seus predecessores, mas hoje a IA leva isso ao extremo, extraindo padrões de milhares de imagens e recriando uma estética sem a alma humana que a moldou.
Lei nenhuma aguenta acompanhar isso. O direito autoral, originalmente projetado para proteger criadores individuais, agora enfrenta um inimigo que não foi construído dentro dos contextos tradicionais. Empresas de tecnologia argumentam que imagens geradas por IA são “transformativas”, e não derivadas, contornando as definições atuais da lei. Mas os artistas, cujos trabalhos foram usados para treinar esses modelos sem consentimento, veem de outra forma. Para eles, essas ferramentas não são inspirações de suas obras: elas são suas obras, só que desmontadas em pixels e reutilizadas sem permissão.

Se olharmos casos jurídicos anteriores podemos ter um vislumbre melhor desse caos. E existe um bem interessante.

Em 2011, quando um macaco-de-crista chamado Naruto tirou uma selfie usando a câmera do fotógrafo britânico David Slater na Indonésia, iniciou-se uma curiosa disputa por direitos autorais. As fotos do macaco viralizaram, gerando um debate legal sobre a quem pertencia o direito autoral. Slater reivindicou a propriedade, enquanto alguns argumentaram que as imagens eram de domínio público, já que animais não podem deter direitos autorais segundo a lei dos EUA. Em 2015, a PETA processou em nome de Naruto, alegando que o macaco deveria ser o dono dos direitos. O caso foi arquivado, com os tribunais decidindo que apenas humanos e entidades legais podem possuir direitos autorais.
Percebe o tamanho do B.O? Se a IA não é humana, então quem é o dono da arte gerada por IA? O criador do modelo de IA? O usuário que digitou o prompt? Os milhares de artistas cujas obras foram usadas, sem crédito ou compensação, para treinar o algoritmo? A falta de clareza permite que empresas de tecnologia lucrem enquanto os artistas travam uma batalha desigual. Esse é o tamanho da necessidade de uma regulamentação.
A ética da criação
Mas além das questões legais, há algo mais profundo em jogo também: o próprio propósito da arte. Imagens geradas por IA podem ser consideradas arte de verdade? Elas carregam o peso da experiência humana, as imperfeições da mão, o trabalho de um artista que passou anos refinando sua técnica?
Novamente, alguns argumentam que a IA torna a arte mais acessível, permitindo que qualquer pessoa crie algo belo com apenas algumas palavras. Outros veem isso como uma imitação vazia, um atalho fácil que desvaloriza a disciplina artística. A polêmica do Studio Ghibli evidencia essa divisão. Uns afirmam que as imagens geradas por IA levam a estética de Miyazaki a novos públicos, que são um tributo e não um roubo. Já para outros, especialmente os artistas que passaram anos pintando cada quadro de um filme do Ghibli, a ideia de que um trabalho tão meticuloso pode ser imitado por um algoritmo em segundos não é um tributo, mas sim uma violação.
E aí entra a questão da intenção: quem realmente se beneficia dessa tecnologia? O usuário que cria arte no estilo Ghibli com IA? Talvez. Mas, mais do que isso, são as empresas de tecnologia por trás das ferramentas, os gigantes cada vez mais bilionários que lucram ao explorar legados artísticos sem prestar contas. Nesse caso, a IA não democratiza a arte, ela a comercializa. Transforma algo íntimo, pessoal e cuidadosamente criado em uma mercadoria produzida em massa.

O futuro da arte em tempos de IA Estilo Ghibli
No fim toda essa briga em cima das artes do Studio Ghibli não se trata apenas sobre um estúdio de animação. É um sinal do que está por vir. A IA continuará evoluindo, sua capacidade de replicar estilos artísticos se tornará cada vez mais precisa, e a questão da autoria ficará ainda mais nebulosa. As leis precisarão se adaptar. Os artistas precisarão de mais proteção. A sociedade precisará decidir o que valoriza, se é a conveniência ou o ofício, imitação ou originalidade, automação ou…arte.
No centro desse debate não está apenas a tecnologia, mas a humanidade. A arte sempre foi mais do que a soma de seus traços de pincel, mais do que pixels em uma tela. Ela é uma extensão da alma do artista, um testemunho de seu esforço, de suas lutas, de suas emoções. E isso é algo que um algoritmo, por mais avançado que seja, jamais poderá compreender de verdade. Eu pelo menos vejo dessa forma.
E sobre o Studio Ghibli, seus filmes sempre foram além da animação. São histórias sutis, muitas vezes simples, mas profundamente humanas. Nenhuma IA poderia inventar essas coisas. Apenas imitá-las.
E talvez, só talvez, essa diferença seja tudo.

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