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Aquiles e o Livre-Arbítrio: algumas reflexões sobre o filme “Troia” (2004)

Tudo está destinado em nossa vida ou criamos nosso próprio destino?

O livre-arbítrio é um dos pilares fundamentais do pensamento filosófico ocidental. Trata-se da capacidade humana de fazer escolhas independentes, sem determinação absoluta por forças externas, sejam elas divinas, ambientais ou biológicas. Uma noção que está intimamente ligada à concepção de que somos agentes morais responsáveis por nossas decisões e ações.

Nas tradições filosóficas, o debate sobre o livre-arbítrio muitas vezes se manifesta através de três correntes de pensamento: o determinismo, o compatibilismo e o libertarianismo. O determinismo sugere que todos os eventos, incluindo escolhas humanas, são causados por eventos anteriores seguindo leis naturais, questionando assim a existência de escolhas genuinamente livres. O compatibilismo, por sua vez, propõe que livre-arbítrio e determinismo podem coexistir harmoniosamente, redefinindo a liberdade não como ausência de causas, mas como ausência de coerção externa. Já o libertarianismo defende que ao menos algumas ações humanas são genuinamente livres, não sendo completamente determinadas por eventos anteriores.

Um dos grandes nomes de toda a mitologia grega é Aquiles, que foi um guerreiro heróico conhecido por sua excepcional força, coragem e destreza em combate, com participação crucial na Guerra de Tróia, segundo a mitologia grega. Mas o que mais me chama a atenção em Aquiles não é sua habilidade em batalha e sim sua visão sobre seu próprio destino. Ao ir para Tróia naquela que seria sua última batalha, Aquiles tinha algo em mente que o diferenciava de todos os outros guerreiros ali: Aquiles sabia que ia morrer. Ou melhor: ele optou por isso.

Na cultura grega antiga, contexto original do mito de Aquiles, o conceito de livre-arbítrio existia em tensão constante com a noção de destino (moira). Os gregos acreditavam que aspectos fundamentais da vida humana eram predeterminados pelos deuses, mas também reconheciam a responsabilidade individual pelas escolhas feitas dentro desses parâmetros. Esta dualidade criava um terreno fértil para tragédias onde heróis enfrentavam as consequências de suas escolhas, mesmo aquelas que pareciam inevitáveis.

A história de aquiles revela uma curiosa relação entre destino e agência pessoal. E sua queda ensina muito sobre o livre arbítrio de um homem.

Aquiles na Mitologia Grega: Entre Destino e Escolha

Na mitologia, Aquiles surge como um personagem emblemático que personifica a tensão entre destino predeterminado e escolha individual. Aquiles era filho de Peleu, um rei grego, e de Tétis, uma ninfa ou deusa do mar. Zeus, o rei dos deuses, e Poseidon, deus do mar, apaixonaram-se por Tétis e foram rivais pela sua mão em casamento. No entanto, os deuses foram avisados sobre uma profecia de que Tétis teria um filho que cresceria e se tornaria maior que seu pai. Preocupado com isso, Zeus providenciou para que Tétis se casasse com um homem mortal para que seu filho não pudesse desafiar seu poder. Em outra versão da história, Tétis rejeita os avanços de Zeus que, furioso, decreta que ela nunca se casaria com um deus. De qualquer forma, Tétis acaba casada com o mortal Peleu e daí nasce Aquiles.

A lenda diz também que Tétis tenta tornar o bebê Aquiles imortal, mergulhando-o no rio Estige (o rio que atravessa o submundo), enquanto o segura pelo calcanhar. A única parte do seu corpo que não foi tocada pelas águas torna-se o seu único ponto fraco, daí a expressão “calcanhar de Aquiles”.

Essa vulnerabilidade física de Aquiles, representada pelo seu famoso calcanhar, simboliza as limitações impostas pelo destino. Contudo, a narrativa mítica também enfatiza suas escolhas pessoais, particularmente sua decisão de participar da Guerra de Troia mesmo conhecendo a profecia de sua morte prematura caso o fizesse.

O mito original apresenta Aquiles como alguém consciente das forças do destino, mas também como agente ativo de suas decisões. Quando Odisseu o encontra escondido entre mulheres na corte de Licomedes, a escolha de Aquiles em revelar sua identidade e juntar-se à expedição grega representa um momento crítico de exercício do livre-arbítrio, ainda que dentro dos parâmetros estabelecidos pela profecia.

“Que um dual destino me leva até ao termo da morte:
Se eu aqui ficar a combater em torno da cidade de Troia,
Perece o meu regresso, mas terei um renome imorredouro;
Porém, se eu regressar a casa, para a amada terra pátria,
Perece o meu renome glorioso, mas terei uma vida longa,
E o termo da morte não virá depressa ao meu encontro.” – Aquiles na Ilíada de Homero

Na tradição homérica, o ponto culminante do exercício do livre-arbítrio de Aquiles ocorre após a morte de Pátroclo. Sua decisão de retornar à batalha, motivada pela vingança pessoal e não mais pela glória, é uma reafirmação de sua autonomia moral, mesmo que isso signifique abraçar conscientemente seu destino trágico. Uma dualidade entre predestinação e escolha individual que constitui o núcleo da complexidade psicológica de Aquiles e estabelece as bases para as interpretações contemporâneas de sua narrativa, incluindo a adaptação de sua história para um filme de Wolfgang Petersen em 2004, de nome “Tróia”. É sobre ele que vamos conversar nesse texto.

O Aquiles de Wolfgang Petersen: Adaptações e Licenças Criativas

O filme “Troia”, lançado em 2004 e dirigido por Wolfgang Petersen, apresenta uma versão de Aquiles significativamente modificada em relação às fontes clássicas, particularmente a “Ilíada” de Homero. Estas adaptações, embora criticadas por alguns puristas, criam um personagem muito interessante que ressoa com sensibilidades contemporâneas e amplifica certos aspectos filosóficos da narrativa original, especialmente aqueles relacionados ao livre-arbítrio.

Troia (2004)

No filme, Aquiles é retratado como um guerreiro cínico e individualista, cuja motivação central não está na lealdade a Agamemnon ou à causa grega, mas sim na busca por glória pessoal e pela imortalidade através da memória coletiva. Diferente da Ilíada, onde os deuses atuam ativamente nos destinos humanos, a adaptação cinematográfica reduz significativamente sua presença, enfatizando a agência humana e o livre-arbítrio nas escolhas morais. Além disso, a inclusão de um romance com Briseida, liberdade criativa em relação ao texto original, funciona como catalisador para o desenvolvimento moral do herói, levando-o a refletir sobre propósito e significado para além da guerra. Mas vamos aprofundar nisso tudo ao longo do texto.

O filme possui muitas contradições históricas quando comparado ao mito original, e uma significativa licença criativa é justamente a alteração na morte de Aquiles. Enquanto na mitologia ele é morto por uma flecha de Páris guiada por Apolo que atinge seu calcanhar vulnerável, no filme ele morre após ser atingido por múltiplas flechas, com a última mirando seu calcanhar como uma referência sutil ao mito original. Esta morte, ocorrendo após uma série de escolhas do personagem, sugere uma morte resultante de suas próprias decisões morais, não apenas do destino inexorável.

Portanto essa adaptação, ainda que distante da precisão histórica ou mitológica, serve bem ao propósito dramático e filosófico de destacar o protagonismo de Aquiles em sua própria narrativa. O Aquiles de Petersen, no filme interpretado por Brad Pitt, é menos um peão dos deuses e mais um indivíduo lutando para definir seu próprio destino em um mundo onde forças maiores parecem determinar o curso da história.

A Escolha Fundamental de Aquiles: Glória ou Longevidade

O dilema central na vida de Aquiles, tanto na mitologia quanto na adaptação de Petersen, gira em torno de uma escolha existencial fundamental: uma vida longa e anônima ou uma existência breve, porém imortalizada pela glória. Esta decisão é o mais puro exemplo de livre-arbítrio na narrativa, estabelecendo o tom para todas as escolhas subsequentes do personagem.

No início do filme, a mãe de Aquiles, Tétis, esclarece explicitamente este dilema ao seu filho antes de sua partida para Troia, mostrando a essência do dilema mitológico e posicionando o destino de Aquiles como uma escolha consciente, não inescapável. A resposta de Aquiles, sua decisão de buscar a glória eterna, estabelece o exercício de sua autonomia.

“Se você ficar em Larissa, encontrará paz. Você encontrará uma mulher maravilhosa e terá filhos e filhas, que terão filhos. E todos eles vão te amar e lembrar do seu nome. Mas quando seus filhos morrerem, e os filhos deles depois deles, seu nome será esquecido… Se você for para Tróia, a glória será sua. Eles escreverão histórias sobre suas vitórias daqui a milhares de anos! E o mundo lembrará do seu nome. Mas se você for para Tróia, você nunca mais voltará…pois a sua glória anda de mãos dadas com a sua sina. E nunca mais te verei novamente” – Tétis para Aquiles.

O que deixa essa escolha ainda mais filosoficamente rica é que não há opção “certa” em termos absolutos. Ambos os caminhos, seja longevidade ou glória, possuem seu valor, e a preferência por um ou outro reflete uma hierarquia pessoal de valores. Aquiles opta pela glória, não apenas aceitando sua morte prematura, mas a abraçando como preço necessário para o que ele acredita ser uma imortalidade simbólica. Esta é a capacidade de determinar não apenas ações específicas, mas o próprio significado e propósito da existência.

O Papel da Ira

Você provavelmente já ouviu a expressão “não faça nada quando estiver com raiva”. Pois é. A ira de Aquiles constitui o eixo central da “Ilíada” de Homero e, embora transformada, se mantém como elemento crucial na adaptação de Petersen. A raiva aqui funciona simultaneamente como manifestação de livre-arbítrio e como força que ameaça comprometê-lo, criando uma complexa dialética entre paixão e autodeterminação.

No filme “Troia”, a ira de Aquiles manifesta-se em dois momentos fundamentais: primeiro, quando se retira da batalha após Agamemnon lhe tomar Briseida; depois, quando retorna à luta movido por vingança após a morte de seu primo Pátroclo. Assim vemos como estados emocionais intensos podem tanto expressar quanto comprometer o livre-arbítrio.

“Ladrão de glórias! Covarde! Todos esses anos os homens derramam sangue por você, e o que recebe em troca? Banquetes e mulheres! Você não é digno de comandar esses homens! Eles lutam por você, morrem por você, e tudo o que você faz é tomar a honra deles! Você não merece respeito! Eu não lutarei mais por você, Agamemnon. Amanhã, eu e meus Mirmidões voltaremos para casa.” – Aquiles a Agamemnon após o sequestro de Briseida.

Isso levanta questões interessantes sobre a relação entre emoções intensas e autonomia. Veja, por um lado, pode-se argumentar que agir sob forte emoção compromete o livre-arbítrio, uma vez que a razão fica subordinada à paixão. Esta visão, alinhada com algumas tradições estoicas, diria que Aquiles, em seus momentos de fúria, age menos livremente do que quando toma decisões mais ponderadas.

Por outro lado, por uma perspectiva mais existencialista, podemos interpretar a ira de Aquiles como expressão autêntica de sua essência e valores pessoais. Sob esta ótica, sua fúria não seria um comprometimento do livre-arbítrio, mas sua manifestação mais pura, revelando aquilo que verdadeiramente importa para o herói. O tratamento do corpo de Heitor – que no mito é arrastado ao redor dos muros de Troia, mas no filme é respeitosamente devolvido a Príamo – também ilustra a evolução moral de Aquiles e sua capacidade de transcender a ira, reafirmando seu livre-arbítrio mesmo nos momentos de maior carga emocional.

Destino x Escolha: Os Deuses e a Agência Humana

Outra modificação importante que o filme faz em relação ao material fonte é a redução dramática do papel dos deuses na narrativa. Na “Ilíada”, divindades como Zeus, Apolo, Atena e Poseidon intervêm diretamente nos acontecimentos, guiando, manipulando e até mesmo lutando ao lado de mortais. Já o filme de Petersen apresenta um mundo onde os deuses existem principalmente como construções culturais e objetos de fé, sem manifestações diretas ou intervenções sobrenaturais evidentes.

Esta secularização da narrativa tem profundas implicações filosóficas, particularmente para o tema do livre-arbítrio. Ao remover ou minimizar o papel das forças divinas, o filme transfere o peso da causalidade para as decisões humanas. Os eventos não ocorrem porque os deuses assim determinaram, mas porque indivíduos como Aquiles, Heitor, Páris e Agamemnon fizeram escolhas específicas com consequências inevitáveis.

“Vou te contar um segredo. Algo que eles não te ensinam no seu templo. Os Deuses nos invejam. Eles nos invejam porque somos mortais, porque qualquer momento pode ser o nosso último. Tudo é mais bonito porque estamos condenados. Você nunca será mais linda do que agora. Nós nunca mais estaremos aqui.” – Aquiles

O filme traz uma perspectiva mais existencialista onde a ausência de determinismo divino não conduz à liberação completa, mas a uma responsabilidade ainda maior pelas próprias escolhas. A morte de Aquiles no filme, resultado de suas próprias decisões, é uma afirmação de seu livre-arbítrio, não sua negação. Ele morre não porque os deuses assim decretaram, mas porque escolheu viver e morrer em seus próprios termos, definindo o significado de sua existência através de suas ações.

Heitor e o Livre-Arbítrio Condicionado pelo Dever

Em “Troia”, Heitor funciona como contraponto a Aquiles, em vários sentidos. Isso oferece uma concepção alternativa de livre-arbítrio condicionada pelo senso de dever e responsabilidade coletiva. Se Aquiles representa uma liberdade individualista orientada para a glória pessoal, Heitor encarna uma liberdade contextualizada por obrigações familiares, sociais e políticas.

O personagem de Heitor, interpretado por Eric Bana, também faz escolhas próprias ao longo da narrativa, demonstrando sua agência moral. No entanto, suas decisões estão muito mais ligadas por suas responsabilidades como príncipe herdeiro, comandante militar, marido e pai. Sua liberdade não é menos real que a de Aquiles, mas ela opera dentro de parâmetros completamente diferentes.

O confronto final entre Aquiles e Heitor é o ápice deste contraste filosófico – e um dos melhores momentos do filme. Heitor não enfrenta Aquiles por glória pessoal, mas por uma necessidade imposta por suas responsabilidades. Ao aceitar o duelo, ele exerce seu livre-arbítrio dentro dos parâmetros de seu dever, escolhendo como morrer quando a morte parecia inevitável. E era.

“Você vagará pelo submundo cego, surdo e mudo, e todos os mortos saberão – este é Heitor, o tolo que pensou que havia matado Aquiles.” – Aquiles para Heitor em Troia.

É através do personagem de Heitor que podemos ver uma concepção de liberdade mais alinhada com tradições filosóficas comunitaristas ou aristotélicas, onde o exercício do livre-arbítrio não ocorre no vácuo, mas dentro de contextos sociais que simultaneamente restringem e dão significado às escolhas individuais. Esta visão se contrapõe ao individualismo existencialista de Aquiles, mas permite uma reflexão com mais camadas sobre como diferentes concepções de dever e responsabilidade constroem o exercício da liberdade humana.

A Transformação Moral de Aquiles: De Guerreiro a Humano

A jornada de Aquiles em “Troia” não se passa só em suas façanhas guerreiras. Seu arco também incorpora uma profunda transformação moral que exemplifica como o exercício do livre-arbítrio pode conduzir ao desenvolvimento ético. Esta evolução, que transcende a busca inicial por glória pessoal, culmina em um dos momentos mais poderosos e bonitos do filme: a devolução do corpo de Heitor a seu pai, Príamo.

Podemos traçar esta transformação através de três estágios fundamentais, cada um representando uma concepção progressivamente mais complexa de liberdade e responsabilidade moral:

  1. O Guerreiro Individualista: No início do filme, Aquiles exerce seu livre-arbítrio primariamente em função de sua glória pessoal. Sua liberdade é autocentrada, focada em sua imortalidade simbólica através da fama. Suas ações são motivadas por um código de honra pessoal que prioriza o reconhecimento de seus feitos sobre qualquer bem coletivo.
  2. O Amante e Mentor: Seus relacionamentos com Briseida e Pátroclo introduzem uma dimensão interpessoal em sua concepção de liberdade. Através do amor romântico e da amizade com seu primo, Aquiles começa a reconhecer o valor intrínseco de outros seres humanos além de si mesmo. Seu livre-arbítrio agora contempla o bem-estar daqueles que ama.
  3. O Reconhecedor da Humanidade Compartilhada: No clímax de sua evolução moral, Aquiles transcende não apenas seu individualismo inicial, mas também seu círculo imediato de afetos. Ele devolve o corpo de Heitor a Príamo, reconhecendo a dignidade fundamental mesmo de seu inimigo, exercendo seu livre-arbítrio em favor de uma concepção universal de respeito humano – mas condenando a si mesmo.

A cena entre Aquiles e Príamo é o ponto de virada desta transformação. Quando o rei de Troia, arriscando sua própria vida, adentra a tenda do homem que matou seu filho para suplicar pela devolução do corpo, ocorre um reconhecimento mútuo de humanidade que transcende fronteiras de inimizade. Aquiles, capaz de ver em Príamo a figura de seu próprio pai e em Heitor um reflexo de si mesmo, faz uma escolha que contraria tanto seu impulso de vingança quanto as expectativas sociais da guerra.

A evolução de Aquiles é, além de uma concepção filosófica do livre-arbítrio como capacidade não apenas de escolher entre opções, também uma forma de transcender determinações prévias através da reflexão moral. Aquiles inicia o filme motivado por glória e depois é tomado por vingança, mas seu arco acaba demonstrando a capacidade humana de superar condicionamentos através da reflexão ética. Ou seja, o verdadeiro exercício da liberdade não está apenas nas escolhas que fazemos, mas em nossa capacidade de reconsiderar e transformar os próprios valores que informam essas escolhas.

O Livre-Arbítrio como Definidor da Condição Humana

“Troia” é uma obra interessante e é legal ver reflexões profundas sobre a natureza do livre-arbítrio e seu papel na definição da condição humana que o filme traz. Mesmo com todas as liberdades criativas tomadas por Wolfgang Petersen em relação ao material fonte, sua história consegue ainda representar as tensões filosóficas que existem na narrativa original.

O arco de Aquiles é perfeito para vermos como o livre-arbítrio opera não apenas como capacidade de escolha entre opções predeterminadas, mas como poder transformador que define o significado da própria existência. No fim, a liberdade humana se manifesta melhor dentro de limitações aparentemente inescapáveis.

O contraste entre Aquiles e Heitor também é muito interessante em relação a diferentes concepções de liberdade: uma individualista, focada na realização pessoal, outra contextualizada por responsabilidades sociais e familiares. Ambas são autênticas, mas conduzem a desfechos distintos, mostrando que o exercício do livre-arbítrio está indissociavelmente ligado às estruturas de valor que compõem nossas escolhas.

Sobre a secularização da narrativa no filme, com a redução do papel dos deuses, o principal impacto é que ela transfere o peso causal dos eventos para as decisões humanas, destacando a responsabilidade moral que acompanha o livre-arbítrio. Diferente da “Ilíada”, onde o destino divino frequentemente sobrepõe-se às escolhas mortais, “Troia” apresenta um mundo onde indivíduos definem seu próprio destino através de suas decisões, mesmo quando reconhecem as limitações impostas por circunstâncias externas.

Enfim, é um filme muito bom para refletir sobre como nossas próprias escolhas definem não apenas nossos destinos individuais, mas também o significado e valor de nossas vidas. Assim como Aquiles, cada um de nós enfrenta dilemas fundamentais onde diferentes caminhos refletem distintas hierarquias de valor. A capacidade de escolher conscientemente entre estes caminhos, assumindo responsabilidade pelas consequências, é o que nos define como seres morais – uma reflexão tão relevante para nosso tempo quanto era para os antigos gregos.

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