Frieren, Nietzsche e o propósito da vida
Existe uma frase bem famosa que é atribuída a Friedrich Nietzsche e que de vez em quando você vê pelas redes sociais ou em algum canto qualquer da internet: “Demore o tempo que for para decidir o que você quer da vida, mas depois que decidir não recue ante nenhum pretexto, porque o mundo tentará te dissuadir.” Não se sabe com exatidão se o filósofo realmente escreveu essas palavras assim, nessa forma direta – e não dá pra confiar em tudo o que vemos na internet. Mas, nesse caso, isso não importa: a ideia é genuinamente nietzschiana, e essa autoria espiritual já é suficiente para merecer nossa atenção.
Nietzsche passou a vida inteira desconfiando das multidões, das convenções e dos valores herdados sem questionamento. Para ele, a maior tragédia humana não era o sofrimento, mas a vida não examinada, aquela que simplesmente acontece, arrastada pelas expectativas alheias. A frase famosa, apócrifa ou não, sintetiza algo essencial no seu pensamento: que decidir é um ato de coragem, mas que manter-se fiel ao que se decidiu é ainda mais corajoso.
Mas o que significa realmente decidir o que se quer da vida? E por que isso demora tanto? Por que o mundo, como pensava Nietzsche, insiste em nos dissuadir? Essas perguntas tocam o cotidiano, o íntimo. E foi ao assistir ao anime Frieren: Beyond Journey’s End que me dei conta de como essa ideia, tão carregada de intensidade em Nietzsche, pode também aparecer de forma completamente diferente em outros textos. Em Frieren, de uma forma contemplativa e absurdamente humana: como encontramos sentido na vida ao longo do tempo? Especialmente quando não sabemos quanto tempo temos ainda para ser vivido sem direção?

Nietzsche e a vontade de dar forma à própria vida
Nietzsche era um filósofo que gostava de cutucar. Sua filosofia exigia que o indivíduo se confrontasse com as ilusões que o sustentavam, a moral gregária, os ídolos culturais, a busca por aprovação externa, essas coisas. Em Assim Falou Zaratustra e em A Gaia Ciência, ele propôs que o ser humano não recebe sentido de nenhuma fonte externa: nem de Deus, nem da sociedade, nem da tradição. O sentido precisa ser criado, forjado com a própria vontade.
“Deus está morto. Deus continua morto. E nós o matamos.
Como nos consolaremos, nós, os assassinos de todos os assassinos?
O que havia de mais sagrado e poderoso em tudo o que o mundo já possuiu sangrou até a morte sob nossas facas: quem limpará este sangue de nós?
Que água existe para nos purificarmos?
Que festivais de expiação, que jogos sagrados teremos de inventar?
Não é a grandeza deste feito grande demais para nós?
Não devemos nós mesmos nos tornar deuses simplesmente para parecermos dignos dele?”
— Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência
“Deus” representava a base de moral, sentido e valores na cultura ocidental. Quando Nietzsche diz que Deus morreu, ele está também dizendo:a fonte externa de sentido entrou em colapso.
É aí que entra um outro conceito, conhecido como vontade de potência, que tem a ver com esse impulso de se superar, de expandir a própria capacidade de ser e criar. Decidir o que se quer da vida, assumir a responsabilidade de existir de forma autêntica, em vez de deixar que outros existam por você.

Voltando àquela frase do começo, a pressão externa de que Nietzsche fala quando diz que o “mundo tentará te dissuadir” tem muitas formas. Às vezes é a voz dos nossos pais que queriam outro caminho. Às vezes é a economia, a segurança, o medo do fracasso. Ou então é simplesmente o peso do que é esperado de alguém em determinada fase da vida. Nietzsche entendia que essas forças são reais e poderosas, mas que ceder a elas sem exame crítico é uma forma de traição a si mesmo.
O amadurecimento, para Nietzsche, não é a aceitação passiva do que a vida impõe. É a capacidade de olhar para tudo isso (as pressões, as perdas, os fracassos) e ainda assim dizer: sim. Sim à existência, sim às escolhas, sim ao caminho que se decidiu trilhar. Ele chamou esse gesto de amor fati: o amor pelo próprio destino, não como resignação, mas como afirmação radical.
Quero aprender cada vez mais a ver como belo o que é necessário nas coisas; então serei um daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati: que esse seja o meu amor de agora em diante! Não quero guerrear contra o que é feio. Não quero acusar; não quero nem mesmo acusar aqueles que acusam. Desviar o olhar será a minha única negação. E, acima de tudo e em suma: um dia, desejo ser apenas alguém que diz sim. – A Gaia Ciência
É uma filosofia intensa e meio assustadora também. E foi justamente isso que mais me surpreendeu ao relacionar ela a algo tão diferente e tão suave: uma série animada japonesa sobre uma elfa que sobreviveu à própria história.

Frieren: a viagem que começa depois do fim
Ok, menos referências e sejamos mais diretos: como é esse tal anime Frieren? Pra falar a verdade, eu ouvi sobre ele a primeira vez em uma sessão de terapia (viu como é importante fazer?). Mas esse é um anime bem diferente dos tradicionais, por isso chamou tanto minha atenção. Frieren: Beyond Journey’s End (Sōsō no Frieren, no original japonês) começa onde a maioria das histórias de fantasia terminaria: o grupo de heróis derrotou o Rei Demônio, o mundo foi salvo, e todos voltam para casa. O “problema” é que Frieren é uma elfa, e para os elfos, o tempo funciona de forma diferente. Enquanto seus companheiros humanos envelhecem, casam, adoecem e morrem, ela permanece. Dez anos passam como uma tarde. Cinquenta anos como uma estação.
O anime não é sobre a aventura épica em si, mas sim sobre o que fica depois dela. A memória, o peso do tempo, a diferença entre estar presente e realmente perceber aqueles ao seu redor. Acompanhamos essa personagem praticamente imortal que passa séculos vivendo sem realmente escolher como viver, até que a morte de alguém a obriga a começar essa escolha.
Essa morte é justamente a parte mais tocante dos primeiros episódios de Frieren e é curiosamente uma cena de morte bem tímida. Himmel, o herói humano que liderou o grupo durante a jornada, morre de velhice. Frieren chora, só que essa reação a surpreende: ela não esperava chorar. Então ela percebe que chora pois mal havia prestado atenção em Himmel durante todos os anos que passaram juntos. Para ela, foram apenas dez anos. Para ele, foi quase tudo.
Esse momento nos apresenta a questão central desse texto: Frieren não havia decidido o que queria daquelas relações. Ela as deixou acontecer passivamente, sem intenção, sem presença real. E agora que Himmel se foi, ela se deu conta de que não o conhecia de verdade. Não havia perguntado o suficiente. Não havia escutado o suficiente. O luto que ela sente não é só pela perda, é pelo tempo desperdiçado sem consciência.

O legal é que à partir daqui Frieren toma uma decisão – nada grandiosa ou épica. A decisão de prestar atenção. De escolher entender em vez de apenas coexistir. De dar sentido ao tempo que ainda tem pela frente. Isso não é também um pouco do que Nietzsche pede? Que a decisão venha de dentro, mesmo que demore séculos para vir.
O passado e a arte de reinterpretar
Frieren não é um anime fácil de assistir ou, pelo menos, não é o tipo de anime que vai agradar a maioria das pessoas. Sua estrutura narrativa é feita em camadas temporais e constantemente alterna entre o presente (a nova jornada de Frieren com Fern e Stark) e flashbacks da aventura original com Himmel, Eisen e Heiter. Mas esses flashbacks agora são reinterpretações. O mesmo momento, visto com os olhos de Frieren depois de décadas, agora tem significados que ela não havia percebido na época.
Às vezes isso acontece com a gente também. Muitas vezes olhamos para o passado de forma muito dura, como uma cobrança interna de que as escolhas deveriam ter sido diferentes, sem entender que as escolhas tomadas naquela época refletem que éramos – com erros e acertos. Quando olhamos com mais carinho e atenção, percebemos o quanto tudo o que escolhemos foi importante.
Um exemplo legal dessa reinterpretação aparece quando Frieren decide buscar uma rara flor conhecida como “blue-moon weed” para ornamentar a estátua de Himmel. À primeira vista, parece mais um capricho meio trivial, seis meses de busca por algo que talvez nem exista. No entanto, essa busca revela um movimento interno muito mais profundo já que Frieren não está apenas procurando uma flor, mas revisitando uma memória que, no passado, lhe passou despercebida. Himmel desejava mostrar essa flor para ela, mas nunca teve a oportunidade e Frieren nunca ligou para isso. Agora em sua busca, ela passa a atribuir um novo valor a um momento que antes parecia insignificante. Assim como nós, que muitas vezes só compreendemos o peso emocional de certas experiências com o passar do tempo, Frieren aprende que o passado não é fixo, ele se transforma conforme nossa capacidade de senti-lo e entendê-lo muda. A flor deixa de ser um objeto e se torna uma ponte entre quem ela foi e quem ela está se tornando.
Isso também inverte totalmente a perspectiva do tempo. Himmel, com seus poucos anos de vida, havia vivido com muito mais intenção, mais presença e mais consideração pelo futuro do que Frieren, com seus séculos de existência. Ele havia decidido o que queria deixar no mundo e havia seguido firme nisso, sem que ninguém soubesse, sem que ninguém pedisse. Talvez essa fosse sua forma de amor fati.

Fern, Stark e o peso das inseguranças
Pra não dizer que só falei da elfa mais querida do momento, Frieren traz outros personagens igualmente interessantes e que, de certa forma, também carregam o peso de ainda não saber quem é. Na primeira temporada conhecemos Fern, a aprendiz maga de Frieren, criada desde criança pelo mago Heiter e Stark, um guerreiro jovem treinado pelo anão Eisen. Ambos são, cada um à sua maneira, versões humanas e comprimidas do mesmo dilema. Eles têm menos tempo do que Frieren, mas a mesma dificuldade em decidir o que querem ser.

Fern é tecnicamente brilhante, mas carrega uma rigidez emocional que vem de anos de isolamento e perda precoce. Ela se esconde atrás da competência porque ainda não sabe como se mostrar vulnerável. Stark, por sua vez, acredita genuinamente que é covarde e passa boa parte do anime lutando contra essa narrativa interna, mesmo quando suas ações contradizem repetidamente essa crença.
O anime os acompanha com uma paciência muito rara de se ver nesse tipo de mídia. Não força revelações dramáticas e permite que o crescimento aconteça de forma orgânica, às vezes em silêncio, às vezes numa discussão sobre comida, às vezes num momento de batalha onde a decisão precisa ser tomada sem tempo para pensar. Vale refletir: a vida só anda pra frente e o processo de tornar-se quem se é não tem prazo fixo.
A gente enxerga isso nos três personagens principais de formas diferentes, mas com a mesma estrutura profunda. O amadurecimento seja ele na visão de Nietzsche ou de Frieren é universal.
Filosofia e Anime
Nietzsche era duro com as palavras. Sua filosofia golpeia, provoca, exige do leitor. Quando ele fala em decisão e firmeza, há uma intensidade quase violenta na proposta, uma recusa furiosa de qualquer forma de capitulação. Frieren, por sua vez, fala mais manso. Apresenta as mesmas ideias mas com muito mais delicadeza, onde o que não é dito carrega tanto peso quanto o que é mostrado.
Ainda assim, a ideia central é a mesma: o tempo de amadurecer e decidir é legítimo, seja ele dez anos ou dez séculos. O que não é legítimo é usar esse tempo como desculpa permanente para não se comprometer com nada, para não se responsabilizar pelo próprio caminho. Frieren passa séculos à deriva não por preguiça ou covardia, mas porque a estrutura de sua existência – sua imortalidade, a perda constante de vínculos – tornava a decisão assustadora demais. Cada vez que ela se apegava a alguém, esse alguém morria.
O que Frieren acrescenta a Nietzsche então é a dimensão da ternura. Não é só afirmar a vida com potência, é preciso também perceber a vida, no detalhe pequeno, na flor plantada às margens de uma estrada, na xícara de chá dividida com alguém que partirá antes de você. A firmeza não exclui a delicadeza. E a delicadeza não é fraqueza. É, talvez, a forma mais sofisticada de força.
Vivemos numa época que odeia a espera. Cada plataforma, cada notificação, cada métrica de produtividade nos diz que já deveríamos ter decidido, que já deveríamos estar mais avançados, que o tempo que levamos para encontrar nosso caminho é um luxo que não podemos nos dar. Nietzsche e Frieren, curiosamente, concordam em dizer o oposto e por razões completamente diferentes chegam ao mesmo ponto de partida: leve o tempo que precisar.
E ambos acrescentam algo que o mundo moderno tenta esconder: depois que você souber, siga. Não espere condições perfeitas. Não espere que o medo desapareça. Não espere que o mundo pare de tentar te parar, porque ele não vai parar de tentar. A pressão externa é uma constante, não uma fase. O que muda é a sua relação com ela.
Frieren passou séculos sem decidir o que queria de sua longa existência, mas quando decidiu que queria entender os humanos, honrar quem amou, e fazer a viagem que Himmel sonhou que ela fizesse, ela não recuou mais. Não porque se tornou invulnerável, mas porque finalmente havia algo dentro dela que era mais forte do que qualquer outra coisa. Humanos não tem tanto tempo de vida como os Elfos, mas elfos não existem, são apenas histórias, metáforas. E metáforas servem para nos fazer refletir e, quem sabe, mudar.
Essa é a lição que tanto Nietzsche quanto um anime sobre uma elfa imortal trouxe pra mim e que eu queria compartilhar aqui. O propósito não nos liberta do sofrimento, mas ele nos dá uma razão para continuar apesar do sofrimento. E essa razão, quando encontrada de verdade, não herdada, não imposta, não performada para aprovação alheia, torna-se uma âncora que nenhuma tempestade consegue arrancar.
Eu escrevo isso com alguém que ainda não descobriu um propósito, mas sigo buscando com todas as minhas forças. E você? Já sabe o que quer ou ainda está, legitimamente, no seu tempo de descobrir? Saida que há uma diferença entre essas duas coisas, mas eu sei que, no fundo, você em que ponto está.
*
Obrigado por chegar até aqui! Espero que tenha gostado do papo e te convido a dar uma olhada nos outros textos do blog. Se curtir, considere também se inscrever no site para receber os textos sempre que eles forem publicados.
Um forte abraço!
