Cinema

Valor Sentimental (2025): O Filme Que Me Fez Entender o Que Significa Amar Algo Que Vai Embora

Tem sempre aquele filme que chega de mansinho, né? Não porque seja pequeno, ou modesto em ambição, ou feito em Minas Gerais, mas porque ele não anuncia suas intenções com o “barulho” de um block buster, por exemplo. Não sacode o espectador pelos ombros. Ele espera. Acho que Valor Sentimental é exatamente esse tipo de filme. E confesso, desde já, que o cinema de Joachim Trier sempre ocupou um lugar curioso para mim. Eu o admiro profundamente, mas nem sempre confio nele de imediato. Seus filmes costumam chegar já pensando sobre si mesmos. São reflexivos, literários, emocionalmente articulados. Às vezes isso soa como uma barreira. Às vezes, como um presente. Mas nessa sua nova história, isso vira o próprio ponto central.

Pode-se dizer, de certa forma, que este é um filme sobre família, mas não no sentido organizado e confortante que a palavra costuma sugerir. Diz mais sobre herança e suas formas: emocional, artística, arquitetônica. Daquilo que é transmitido sem perguntar se a gente quer ou não. E, de forma ainda mais direta, é também um filme sobre o que acontece quando amor e criação artística se misturam a ponto de se tornarem indistinguíveis do dano que causam.

No centro da história está Gustav, um cineasta outrora celebrado que retorna à vida das filhas após uma longa ausência. Stellan Skarsgård o interpreta com uma calma quase assustadora. Através dele conhecemos um personagem que sempre acreditou que sua vida interior justificava os estragos que causava ao redor. Suas filhas, Nora e Agnes, cresceram moldadas por sua ausência. Nora, vivida pela maravilhosa Renate Reinsve, carrega essa ferida de forma mais aberta. Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) transformou a sua dor em estrutura, em intelecto, em uma espécie de burocracia emocional. O filme não apresenta nenhuma dessas estratégias como mais saudável que a outra, mas elas existem ali, e talvez isso seja o suficiente por si só.

Uma coisa que chama atenção, logo de início, é o quanto o filme evita julgamentos apressados, o que eu entendo mais como uma característica de seu diretor. Ele não reduz Gustav a um monstro, nem o trata como um gênio incompreendido. Em vez disso, permite algo muito mais desconfortável: ele o torna reconhecível. Seu maior pecado não é a crueldade de sua ausência na criação de suas filhas, é o egoísmo disfarçado de sensibilidade. Gustav acredita que fazer arte é uma forma de dizer a verdade e que dizer a verdade o absolve de seus erros. Só que ele está errado.

É aqui que Valor Sentimental nos atinge. Porque o filme entende que o dano emocional não é tão dramático quando visto de dentro. Ele parece razoável, coerente, parece convicção. É o pai oferecendo à filha um papel em seu filme de retorno e acreditando, sinceramente, que isso é um gesto de amor. Quando Nora recusa, sua rejeição não soa como um limite saudável, mas como um ataque à identidade de Gustav. Isso o confunde, e o leva a decisão de escalar Rachel no lugar na filha, uma jovem atriz de Hollywood interpretada aqui por Elle Fanning. Mas essa também não é uma escolha vingativa, é ainda pior, é uma decisão funcional. É a facilidade com que ele substitui as coisas.

Por falar em personagens, vamos falar da tal casa. Joachim Trier se interessa bastante por espaços. A antiga casa da família paira sobre tudo, não como um clichê de mansão assombrada, mas como um recipiente de memória. Certos ambientes guardam lembranças nossas mesmo quando tentamos esquecê-las por completo, e o diretor entende isso muito bem. Corredores guardam ecos, batidas de portas registram crescimento. Há uma sensação de que o simples fato de estar naquele lugar reativa versões dos personagens que eles acreditavam ter superado. A casa não é sentimental porque é acolhedora, ela é sentimental porque é inevitável no que traz.

E aqui cabe um adendo à direção de Trier, que é contida a ponto de ser ousada. A câmera observa mais do que enfatiza, e eu entendo que o filme possa às vezes parecer lento ou que nada acontece, mas muitas cenas são demoradas ou terminam um pouco depois do esperado, justamente porque dessa forma elas permitem que esse desconforto permaneça. Os diálogos não se resolvem com facilidade, eles se dissipam, deixam marcas. Não é um filme com catarse no sentido clássico, é mais um acúmulo de feridas emocionais que, quando ignoradas, se tornam estruturais.

Renate Reinsve, em especial, está extraordinária. Ela merece muito o Óscar por essa atuação. Sua pergonagem, Nora, é áspera, extremamente defensiva, muitas vezes desagradável de um jeito que raramente é permitido a personagens femininas sem que isso venha acompanhado de punição na narrativa. Você vê o quanto ela está com raiva, mas não é uma raiva performática. É cansada. É a raiva de alguém que passou anos se explicando e já não acredita que a explicação vá resolver alguma coisa. O filme não pede que a gente fique do lado dela porque ela está certa, mas sim porque ela é real, é alguém de verdade. Aliás essa parceria Renate–Joachim já fez algo similar em A Pior Pessoa do Mundo, então isso não é exatamente um fator surpresa.

Enfim, Valor Sentimental gira muito em torno dessa ideia de legado, que não tem nada a ver com prêmios ou reputação, mas sim com aquilo que deixamos nas pessoas mais próximas. Gustav quer ser lembrado como artista. Nora luta para não se lembrar dele de forma alguma. Essa tensão alimenta cada interação, e o filme é absolutamente lúcido ao afirmar que amor não anula dano, que boas intenções não apagam negligência e que pedidos de desculpa não funcionam de forma retroativa.

Ainda assim, este não é um filme niilista, ele abre bastante espaço para compreensões parciais. Não necessariamente reconciliação ou cura como ponto de chegada, mas um certo reconhecimento. Momentos em que os personagens finalmente se enxergam com clareza, mesmo que não consigam agir a partir disso de maneira duradoura. Às vezes, isso é tudo.

Sobre o título, “Valor Sentimental”, ele carrega muito peso e faz todo sentido. É uma expressão que costumamos usar de forma quase depreciativa, para separar valor real de apego emocional. O filme desafia essa divisão. Ele sugere que valor emocional é valor, ponto. Mesmo quando dói ou quando complica as narrativas que contamos a nós mesmos. Talvez especialmente nesses casos.

Quando termina, não há uma grande transformação, apesar daquela maravilhosa cena final. Mas não existe nenhuma redenção espetacular ou direta ali. O que existe é algo muito mais honesto: a noção de que as pessoas mudam aos poucos, que compreensão não garante reparação, que a arte pode ser ponte e arma ao mesmo tempo e que, às vezes, a coisa mais significativa que uma história pode fazer é permanecer nessa contradição sem tentar resolvê-la.

Valor Sentimental é meu filme favorito de 2025. Ele conquistou minha atenção e, mesmo depois de acabar, ainda penso nele, não como lição, mas como sensação. Quem me dera se todo filme fosse assim. ♥

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