
O cinema brasileiro vive um novo momento internacional
Durante muito tempo, falar de cinema brasileiro no cenário internacional era falar de exceções. Um filme que aparecia aqui, outro que chamava atenção ali, quase sempre vistos como casos isolados. Nos últimos anos, isso mudou. O que estamos vendo agora é um movimento consistente de reconhecimento, presença e respeito em alguns dos palcos mais importantes do cinema mundial.
O ponto mais simbólico desse processo veio com o Oscar de 2025. Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, tornou-se o primeiro filme brasileiro dirigido por um brasileiro a vencer o prêmio de Melhor Filme Internacional. A conquista já seria histórica por si só, mas foi além. O filme também disputou a categoria principal de Melhor Filme, e Fernanda Torres concorreu ao Oscar de Melhor Atriz. Para uma obra falada em português, esses feitos ainda são raros e ajudam a dimensionar o tamanho do impacto.

Esse reconhecimento não surge do nada. Ele é resultado de um amadurecimento artístico que vem sendo construído há anos, com cineastas que aprenderam a dialogar com o mundo sem abrir mão de suas referências locais.
Cannes e o respeito artístico
Se o Oscar representa a consagração popular e industrial, Cannes costuma ser o termômetro do prestígio artístico. E ali o Brasil também tem marcado presença de forma cada vez mais relevante.
Em 2025, Kleber Mendonça Filho conquistou prêmios importantes no festival com O Agente Secreto. Melhor Direção para o cineasta e Melhor Ator para Wagner Moura não são apenas troféus na estante. São sinais claros de que o cinema brasileiro não está apenas participando, mas competindo em alto nível, sendo levado a sério por críticos, curadores e profissionais do setor.

Esse tipo de reconhecimento ajuda a quebrar um estigma antigo: o de que nossos filmes seriam interessantes apenas como curiosidade cultural. Hoje, eles são vistos como cinema de primeira linha.
Um movimento que também é estratégico
O crescimento não acontece só na tela. Em 2025, o Brasil foi escolhido como País de Honra no Marché du Film, o mercado de negócios que acontece paralelamente ao Festival de Cannes. Essa escolha diz muito sobre como a indústria brasileira passou a ser enxergada.
Estar em destaque nesse espaço significa mais oportunidades de coprodução, mais conversas com investidores internacionais e uma inserção mais sólida no mercado global. É ali que muitos projetos ganham vida antes mesmo de chegar aos festivais ou às salas de cinema.
O contraste com o cenário interno
Curiosamente, enquanto o cinema brasileiro ganha força fora do país, os desafios internos continuam sendo grandes. A burocracia, a instabilidade política e a lentidão na liberação de recursos ainda são obstáculos frequentes para quem produz cinema no Brasil.
Grande parte dos filmes que hoje circulam bem no exterior depende de financiamento público ou de parcerias internacionais para existir. Isso cria um paradoxo difícil de ignorar: somos celebrados lá fora, mas seguimos enfrentando dificuldades estruturais para fazer esses filmes chegarem ao público brasileiro de forma mais ampla.
Não se trata de desmerecer o apoio estatal, que é fundamental, mas de reconhecer que o mercado interno ainda é frágil e pouco previsível.
Histórias locais, impacto global

Talvez o aspecto mais interessante desse momento seja o tipo de história que o cinema brasileiro tem levado ao mundo. Filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto não tentam suavizar o país nem vender uma imagem exótica. Pelo contrário. Eles mergulham em temas difíceis, como as marcas da ditadura militar, a memória política e as tensões sociais que ainda reverberam no presente.
É justamente essa honestidade que cria conexão com o público internacional. Ao contar histórias profundamente brasileiras, esses filmes acabam falando de questões universais: memória, identidade, poder e resistência.
O cinema brasileiro pode até estar entrando de mansinho em alguns desses espaços, mas os passos são firmes. E tudo indica que esse não é um momento isolado, e sim o início de uma presença mais duradoura no mapa do cinema mundial.
Amém.
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